quinta-feira, 23 de abril de 2026




O UIVO DE MONTEJUNTO


Porque resulta de interesse histórico e natural conhecimento, com a devida vénia se transcreve o texto infra.


O Último Uivo no Montejunto
Hoje já ninguém se lembra dele.
Antigamente, as braseiras recolhidas, as crianças deitadas, os cães quietos com aquela quietude densa de quem fareja algo que os homens não conseguem sentir. E então, de cima, da serra escura e densa e impenetrável, vinha qualquer coisa que não era vento nem coruja nem nenhuma das coisas que têm nome certo no mundo dos homens.
Ele também não tinha nome próprio. Recusavam-lho.
Mas tinha os seus.
Tinha o nome do vento quando deslizava pelos carvalhos da encosta norte.
Tinha o nome da pedra calcária que guardava o calor do sol até depois da meia-noite.
Tinha o nome do uivo que, em certas noites de Janeiro, descia do planalto de Montejunto, escorria pelas encostas e chegava às aldeias adormecidas.
Entrava pelas frestas das portas.
Entrava pelos sonhos das crianças.
E ficava lá, instalado no fundo da memória, para o resto da vida.
Tinha, acima de tudo, o nome deste lugar.
Era tão antigo aqui como a pedra.
Talvez mais antigo do que os próprios homens que o temiam, e que, por isso mesmo, o odiavam.


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1. Quando só havia Serra

Muito antes de haver Cadaval, muito antes de haver Peral ou Vilar ou A-dos-Francos ou qualquer dos nomes que os homens foram pousando sobre a paisagem como bandeiras de uma conquista que nunca seria completa, havia a serra. E na serra havia o lobo.
Frei Luís de Sousa escreveu no século XVII que Montejunto era terra de "matos espessos" que serviam de "guarida de lobos e outros animais silvestres", e ao escrever isto não registava uma novidade, registava uma antiguidade. Registava algo que ali estava desde antes de qualquer memória humana, desde antes de qualquer crónica ou foral ou memória paroquial, desde o tempo em que esta serra era apenas uma serra e não o território de ninguém porque era o território de todos.
As alcateias percorriam as encostas com a soberania tranquila de quem não precisa de justificar a sua presença. Conheciam cada ribeiro, cada furna, cada clareira onde a geada derretia mais depressa porque o sol batia de ângulo favorável.
Conheciam os caminhos dos corços e os abrigos dos javalis e os lugares onde os coelhos abriam as suas tocas na terra calcária. Conheciam, também, as aldeias do sopé, os currais de pedra seca, os cães enormes com as suas coleiras de ferro em ponta, o cheiro do homem que subia pela encosta nas manhãs de Inverno misturado com fumo de lenha e suor de animal doméstico.
Conheciam os homens. E os homens, à sua maneira torturada e ambígua, conheciam-nos a eles.


2. O Preço do Medo

As Memórias Paroquiais de 1758, o grande inquérito que o Marquês de Pombal ordenou às freguesias do reino depois do Terramoto, registaram para a zona de Ota, nas raízes dos penhascos de Montejunto, que "se criavam em covas muitos lobos" que "faziam muita perda" ao gado local, sendo essa a razão pela qual se mandaram queimar os matos.
É uma frase administrativa, fria, de funcionário. Mas por detrás dela está uma realidade de séculos: famílias de pastores em Painho e em Pragança e em Figueiros que acordavam de manhã para encontrar o curral devastado e o rebanho, o seu único capital, o único bem que tinham demorado anos a acumular, reduzido a lã ensanguentada e silêncio.
Não é difícil entender o ódio. Seria desonesto não o reconhecer.
Mas há uma crueldade específica na forma como os homens medievais e modernos responderam a este ódio, uma crueldade que vai para além da necessidade e entra no território do ritual, do simbólico, do exorcismo colectivo.
As Ordenações Afonsinas de 1446 e as Manuelinas de 1521 legislavam sobre recompensas pelo abate de lobos como se fossem criminosos com preço na cabeça. As grandes montarias reuniam dezenas de homens armados que cercavam a floresta em arco crescente, apertando o cerco com gritos e fogueiras e o barulho do metal, afunilando os animais para uma zona de matança.
Os fojos, armadilhas de pedra seca em forma de funil onde o lobo caía numa vala profunda de onde não conseguia sair, eram construídos com uma paciência e uma engenhosidade que revelavam quanto pensamento humano tinha sido investido na destruição desta criatura.
E havia os lobeiros: homens que faziam da morte do lobo uma profissão, itinerantes e solitários, que percorriam o país com os seus laços de ferro e os seus venenos de acónito misturados em iscas de carne, e que eram recebidos nas aldeias com uma mistura de gratidão e de desconforto, como se a sua especialização naquele ofício os tornasse, também a eles, um pouco lobos.



3. Demónio ou Santo

Porque o lobo nunca foi apenas um predador nestas terras. Foi um espelho. E os espelhos são sempre mais perturbadores do que os inimigos.
Dizia o povo que "a fome faz sair o lobo do mato", e sabia do que falava, porque conhecia a fome que faz o homem fazer coisas que em tempos de fartura não faria. Dizia também, em voz mais baixa, que o lobo era o "cão de Deus", enviado como executor da Providência sobre quem não pagava os dízimos ou lavrava ao domingo.
Se uma alcateia devastava um rebanho, era porque aquele rebanho "já não pertencia ao dono, mas ao destino". A Igreja medieval tinha demonizado o lobo, chamava-lhe símbolo satânico, inimigo do rebanho de Deus, mas o povo, com a sua teologia torta e profunda, transformara o demónio em instrumento divino. O lobo castigava os pecadores. O lobo era enviado. O lobo era, à sua maneira brutal e incompreensível, justo.
Esta ambivalência estendia-se às práticas quotidianas com uma lógica que só a vida rural mais antiga consegue produzir. Os pastores do Cadaval recitavam a "Oração de São Bento" e o "Responso de Santo António" para que o santo "fechasse a boca ao bicho", e ao mesmo tempo guardavam os dentes do mesmo bicho montados em prata para pendurar ao pescoço das crianças, protegendo-as do mau-olhado e ajudando na dentição.
A "gola do lobo", peça da traqueia do animal, curava a lobagueira nos porcos: bastava dar a beber ao animal água que tivesse passado por esse osso. As benzedeiras entoavam rezas nos marcos divisórios ao anoitecer. O predador tornava-se remédio. O inimigo tornava-se aliado. O que se matava de dia protegia de noite.
Havia ainda o lobisomem, e esta crença, mais do que qualquer outra, revela o quanto o lobo habitava o interior dos homens e não apenas a floresta exterior.
No Oeste português, o sétimo filho varão de uma família sem filhas intercaladas estava condenado a "correr o fado" nas noites de sexta-feira, transformando-se involuntariamente, percorrendo encruzilhadas e aldeias adormecidas sem guardar memória do que fizera ao amanhecer.
O Professor António de Oliveira, estudioso da tradição oral de Montejunto, registou que nos lugares da Serra os lobisomens "ainda eram capazes de dar coices nas portas". Para o desencantar, era necessário feri-lo com ferro ou aço e deixar correr sangue, o metal da civilização imposto sobre o selvagem, a fronteira entre o mundo humano e o outro mundo reafirmada pelo gesto mais antigo de todos. E então o infeliz, porque era um infeliz, não um monstro, recuperava a forma humana.
Era um vizinho. Era um filho. Era alguém que todos conheciam e que carregava, sem culpa e sem remédio, uma condição que o situava na fronteira exacta entre o que os homens eram e o que temiam poder vir a ser.


4. Histórias de Lobos

Conta a tradição, e estas tradições não se inventam, sedimentam-se ao longo de gerações sobre um fundo de verdade vivida, que em tempos de peste os lobos de Montejunto desciam até às portas de A-dos-Francos e uivavam, não por fome, mas como arautos da morte, antecipando os falecimentos na aldeia com um saber que os homens não possuíam e não conseguiam explicar.
Conta-se também que, no tempo em que a Real Fábrica do Gelo laborava no alto da serra e os carregadores desciam de noite com o gelo para Lisboa, esses homens temiam mais os lobos do que os salteadores dos caminhos. Um mestre de obras da fábrica terá sido cercado por uma alcateia junto à Ermida de Nossa Senhora das Neves, sobrevivendo apenas porque manteve uma fogueira acesa com as suas ferramentas de madeira, ardendo uma a uma, até ao amanhecer.
É uma imagem que diz tudo sobre o que foi viver nesta serra durante séculos. O homem sozinho no escuro. O fogo a diminuir lentamente. Os olhos à volta, na escuridão, reflectindo as chamas com uma luz que não era humana. E o homem a queimar a última ferramenta, o instrumento do seu trabalho, da sua civilização, da sua distinção relativamente ao mundo selvagem, para se manter vivo até que o sol voltasse.
O sol voltou sempre. Até ao dia em que o lobo já não estava lá para esperar que voltasse.




5. Depois do Último Uivo o Silêncio

O fim foi lento e sem testemunhas dignas desse nome.
Ao longo do século XIX a floresta recuou, os matos foram queimados, as presas selvagens escassearam, e as alcateias foram sendo eliminadas batida a batida, laço a laço, veneno a veneno, com a implacável paciência de quem tem tempo e armas e a lei do lado.
Os últimos lobos do Oeste desapareceram algures entre 1920 e 1940, não numa batalha épica com data e hora, mas por erosão silenciosa, como desaparecem todas as coisas que não têm voz para anunciar a própria extinção.


A geração que hoje teria noventa anos é provavelmente a última que conheceu pessoas que fecharam currais com o coração na mão e ouviram, na infância, uivos vindos do planalto nas noites de Inverno.
Alguns recordavam alívio, o gado estava salvo, as crianças podiam dormir. Mas outros, e esses outros são os que importa escutar, guardaram sempre uma estranha saudade de algo que não sabiam nomear exactamente.

A serra ficou mais segura. Mas ficou também mais silenciosa. E esse silêncio, dizem, era de um tipo diferente do silêncio normal. Tinha peso. Tinha textura. Tinha a forma precisa de uma ausência que antes fora uma presença.
Talvez porque extinguir o lobo não foi apenas extinguir um predador. Foi extinguir um medo. E os medos antigos, quando desaparecem, levam consigo uma camada da alma dos lugares que os geraram.
Levam o mistério. Levam a fronteira entre o mundo domesticado e o outro mundo, o mundo que existia antes de qualquer aldeia, antes de qualquer foral, antes de qualquer nome pousado sobre a paisagem como bandeira de uma conquista.


A Serra de Montejunto continua de pé, brumosa e majestosa, nos seus seiscentos e sessenta e seis metros de pedra calcária e silêncio. Mas nas noites mais frias de Janeiro, quando o vento desce do planalto com o ângulo certo e passa pelos penhascos com um som que não é exactamente vento, os mais velhos das aldeias lá em baixo ainda ficam um momento quietos.


Não dizem nada. Mas ficam quietos.


É a memória do lobo que passa. É o eco de milénios a lembrar que esta terra foi, durante muito mais tempo, deles do que nossa.

Fernando Carvalho 
in página Cadaval do Facebook 





sexta-feira, 10 de abril de 2026

 FOOT BALL ART



Lawrence Stephen Lowry, The Football Match, 1949, óleo sobre tela, 71,1x91,4 cm, Lefevre Gallery, Londres.


 SHĀH MĀT

O pedófilo criminoso e seu irmão genocida, que é quem o controla e os seus regimes, não vão cumprir cessar fogo nenhum e o Irão sabe disso perfeitamente. Mas a criatura laranja continua a jogar o seu jogo de xadrez contra uma civilização que criou o xadrez e o checkmate, que quer dizer "o rei está indefeso, o rei está impotente".

SHĀH MĀT


João Andarilho 


O UIVO DE MONTEJUNTO Porque resulta de interesse histórico e natural conhecimento, com a devida vénia se transcreve o texto infra . O Último...