O PALITAR DA VIDA
Como os dentes devemos palitar a vida todos os dias. Sou do tempo em que não havia modernices ao estilo do fio dental. Eu uso fio dental e é com este meio que cuido da minha higiene oral. Porém e além do mais, o uso do dito fio não se consigna à dita higiene. É só vê-lo, amiúde, entre entre-folhos mais ou menos higiénicos, promovendo discretos sonares e púdicos olhares. No outono da vida, dou-me a pensar porque raio desgastei tanta vida, obrigado às mesma rotinas, dia-a-dia, mês-a-mês, ano-a-ano, sem que me considere valorizado pela instância a quem presto os meus serviços. Porque responsável, sou um empregado que dedicou e dedica a sua missão ao serviço público, de acordo com as espectativas de quem me contratou e me paga a injusta remuneração mensal. Resumindo, após tantos anos de missão, começa a chegar o momento de palitar a vida com outros sabores e descobrir outras culinárias, descomprometido com rotinas e obrigações e empreendendo o resto do Outono e talvez o Inverno, da maneira que melhor der na real gana, em bom português.
João Andarilho



