domingo, 16 de agosto de 2026

 

O CHEIRO DO LIVRO



O Livro, o manuseio, a textura, o cheiro, a intimidade que se cria ao descobri-lo e a ele nos entregarmos, é facto que nunca se encontrará numa leitura digital de qualquer obra literária de qualquer autor.

Seguirei, sempre, leitor de publicações impressas, palpáveis e originais qualquer que seja a sua edição.

João Andarilho 

quinta-feira, 13 de agosto de 2026



TORGA




— Liberdade, que estais no céu...

Rezava o padre-nosso que sabia,

A pedir-te, humildemente,

O pio de cada dia.

Mas a tua bondade omnipotente

Nem me ouvia.



— Liberdade, que estais na terra...

E a minha voz crescia

De emoção.

Mas um silêncio triste sepultava

A fé que ressumava

Da oração.



Até que um dia, corajosamente,

Olhei noutro sentido, e pude, deslumbrado,

Saborear, enfim,

O pão da minha fome.

— Liberdade, que estais em mim,

Santificado seja o vosso nome.



Miguel Torga, in 'Diário XII'

-----------------------------------------------------------------




Título: LIBERDADE


 

NO TEMPO DO EUSÉBIO 



A memória que tenho de uma época em que o futebol era vivenciado não só pela qualidade dos seus protagonistas mas também pela paixão que a modalidade despertava, encerrando nobres valores: desportivismo, camaradagem e sã rivalidade.

 

João Andarilho 


MIGUEL TORGA, 12 de Agosto de 1907 - 17 de Janeiro de 1995





«ROMANCE


Ora pois: foi tal qual como vos digo:

Minha Mãe, certo dia, pôs a questão assim:

- ou Ela, ou eu!

E ficou resolvido que no dia doze

minha Mãe parisse,

e pariu!


Pariu e ninguém se opôs! Ninguém!

Como se fosse um feito glorioso

parir assim alguém, tão nu, tão desgraçado!

Por mim,

ainda disse que não!

Mas o seu Anjo da Guarda

era forte e tenebroso...

E aquele frágil cordão

Deixou de ser o meu Pão,

o meu Vinho

e a paz eterna do meu coração

mesquinho!...


Deixou de ser o silêncio

delicado e agradecido

dos meus instintos menores...

Deixou de ser o Norte daquele lago

onde boiava o meu corpo

sem alegria e sem dores...


Deixou de ser aquela verdadeira

e sagrada ignorância do meu nome,

que Satanás me disse, quando disse:

- Respira e come,

respira e come,

Animal!

(A voz de Satanás já nesse tempo

era humana e natural...)


Deixou de ser o mundo e foi um outro!

Foi a inocência perdida

E a minha voz acordada...

Foi a fome, a peste e a guerra!

Foi a terra

sem mais nada!


Depois,

sem dó nem piedade a vida começou....

Minha Mãe, a tremer, analisou-me o sexo,

e, ao ver que eu era homem,

corou... »




O Outro Livro de Job. (Poemas)

Miguel Torga

                                *

Fotobiografia de Miguel Torga, por Clara Rocha: Imagem de Miguel Torga.

 

ICE-CREAM MAN




segunda-feira, 3 de agosto de 2026

 AZIAGO


Hoje não está a correr bem o dia. Saio em direcção ao metro Oriente. O objetivo claro é ir à Gulbenkian. Saio em São Sebastião para apanhar a linha azul e apear-me na Praça de Espanha. Entro no cais errado que me leva para o Cais do Sodré. Saio no Parque e mudo para o cais contrário em direção à Praça de Espanha. Aí chegado, dou conta que me encontro no ponto mais distante do objetivo Gulbenkian. Ponho-me a andar e desespero nos semáforos sempre vermelhos e demorados. Finalmente alcanço a loja do Centro Cultural e, aliviado, fiquei inconformado porque encerrara às 18:00 horas. Eram 18:08. Fuck! Regresso, cabisbaixo, para retomar São Sebastião ali tão perto! Que volta do raio que o parta fui dar! Sentei-me e aproveitei para ouvir um pouco de jazz no anfiteatro. Acalmei. Retomo, então, São Sebastião e apanho a linha vermelha para a Alameda. Dou por mim e já estava na Belavista. Fuck de novo! Volto ao contrário para a Alameda. Há atraso nos comboios... tardam. Espero, sento-me e desespero. Finalmente, longos minutos depois, aparece o comboio, à pinha. Da Alameda rumo à Verde, para Telheiras. Felizmente parece que o azar terminou.




João Andarilho 

  O CHEIRO DO LIVRO O Livro, o manuseio, a textura, o cheiro, a intimidade que se cria ao descobri-lo e a ele nos entregarmos, é facto que n...