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segunda-feira, 27 de julho de 2026

JOSÉ S.






Carta escrita por JOSÉ SARAMAGO
a sua avó, publicada no jornal A Capital, em 1968 com o título:


CARTA A JOSEFA, MINHA AVÓ:


"Tens noventa anos. És velha, dolorida. Dizes-me que foste a mais bela rapariga do teu tempo — e eu acredito. Não sabes ler. Tens as mãos grossas e deformadas, os pés encortiçados. Carregaste à cabeça toneladas de restolho e lenha, albufeiras de água.


Viste nascer o sol todos os dias. De todo o pão que amassaste se faria um banquete universal. Criaste pessoas e gado, meteste os bácoros na tua própria cama quando o frio ameaçava gelá-los. Contaste-me histórias de aparições e lobisomens, velhas questões de família, um crime de morte. Trave da tua casa, lume da tua lareira — sete vezes engravidaste, sete vezes deste à luz.


Não sabes nada do mundo. Não entendes de política, nem de economia, nem de literatura, nem de filosofia, nem de religião. Herdaste umas centenas de palavras práticas, um vocabulário elementar. Com isto viveste e vais vivendo. És sensível às catástrofes e também aos casos de rua, aos casamentos de princesas e ao roubo dos coelhos da vizinha. Tens grandes ódios por motivos de que já perdeste lembrança, grandes dedicações que assentam em coisa nenhuma. Vives. Para ti, a palavra Vietname é apenas um som bárbaro que não condiz com o teu círculo de légua e meia de raio. Da fome sabes alguma coisa: já viste uma bandeira negra içada na torre da igreja. (Contaste-mo tu, ou terei sonhado que o contavas?)


Transportas contigo o teu pequeno casulo de interesses. E, no entanto, tens os olhos claros e és alegre. O teu riso é como um foguete de cores. Como tu, não vi rir ninguém. Estou diante de ti, e não entendo. Sou da tua carne e do teu sangue, mas não entendo. Vieste a este mundo e não curaste de saber o que é o mundo. Chegas ao fim da vida, e o mundo ainda é, para ti, o que era quando nasceste: uma interrogação, um mistério inacessível, uma coisa que não faz parte da tua herança: quinhentas palavras, um quintal a que em cinco minutos se dá a volta, uma casa de telha-vã e chão de barro. Aperto a tua mão calosa, passo a minha mão pela tua face enrugada e pelos teus cabelos brancos, partidos pelo peso dos carregos — e continuo a não entender. Foste bela, dizes, e bem vejo que és inteligente. Por que foi então que te roubaram o mundo? Quem to roubou? Mas disto talvez entenda eu, e dir-te-ia o como, o porquê e o quando se soubesse escolher das minhas inumeráveis palavras as que tu pudesses compreender. Já não vale a pena. O mundo continuará sem ti — e sem mim. Não teremos dito um ao outro o que mais importava. Não teremos, realmente? Eu não te terei dado, porque as minhas palavras não são as tuas, o mundo que te era devido. Fico com esta culpa de que me não acusas — e isso ainda é pior. Mas porquê, avó, por que te sentas tu na soleira da tua porta, aberta para a noite estrelada e imensa, para o céu de que nada sabes e por onde nunca viajarás, para o silêncio dos campos e das árvores assombradas, e dizes, com a tranquila serenidade dos teus noventa anos e o fogo da tua adolescência nunca perdida: «O mundo é tão bonito, e eu tenho tanta pena de morrer!»

É isto que eu não entendo — mas a culpa não é tua.





Colagem/ técnica mista © Kristin Schue, EUA


sábado, 20 de junho de 2026


UMA RUA SINGULAR


https://www.luzinterruptus.com/ 

Em Toronto há uma rua que se tornou singular, porque em 1 de Outubro  de 2016, no âmbito de uma instalação feita pelo colectivo artístico espanhol Luzinterruptus, foi alcatroada de livros, proporcionando uma imagem que vale mil palavras.

Boas leituras.

João Andarilho 


sexta-feira, 29 de maio de 2026


 BORGES POR MANGUEL


Alberto Manguel, argentino, bibliófilo consagrado, escreveu um pequeno livro intitulado COM BORGES,  de homenagem a Jorge Luis Borges, escritor argentino de dimensão universal, notavelmente simples na sua imensa grandeza como homem de cultura e extraordinária sapiência. 

Relata-nos, de uma maneira simples, o que foi a sua relação com o génio escritor e retrata pormenores do que era a pessoa como pessoa e a dimensão do seu conhecimento.

Do que li, até ao momento presente, transcrevo uma pequena passagem do livro que acho deliciosa e me roubou um sorriso para além do sorriso. É assim:

" Um dia em que eu estava lá, o carteiro trouxe uma grande encomenda contendo uma edição de luxo do seu conto O Congresso, publicado em Itália por Franco Maria Ricci. Era um livro enorme, encadernado em seda preta, com letras douradas e impressas num papel fabriano azul feito à mão, cada ilustração ( a história vinha ilustrada com pinturas tétricas) fora colada à mão e todos os exemplares, numerados. Borges pediu-me que lhe descrevesse. Ouviu atentamente e exclamou: « mas isso não é um livro, é uma caixa de chocolates! » E, a seguir, ofereceu-o ao desconcertado carteiro. "

Vale esclarecer que Jorge Luis Borges, perdeu a visão pouco antes dos sessenta anos de idade.



João Andarilho

domingo, 5 de abril de 2026

 

MT





" Coimbra, 3 de Abril de 1983 — Morte de minha irmã. E não há palavras para o desespero em que estou. Gostávamos um do outro como dois cúmplices do mesmo mistério sagrado, feito de raízes e vínculos. Tudo nela era, como em mim, ligação à terra, às tradições, às origens. Havia uma ancestralidade ingénita em todos os seus gestos, ditos e comportamentos. S. Martinho falava pela sua boca mais eloquentemente do que pela minha pena. Numa imagem, num rifão, consubstanciava toda a realidade física e metafísica que a rodeava. Depois de sacrificar a mocidade a cuidar dos pais até lhes fechar os olhos, ficou heroicamente o resto da vida à frente da casa a granjear as courelas, sempre à espera do herdeiro que eu lhe desse e fosse o continuador da sua fidelidade à matriz. É dia de Páscoa. O padre já hoje não lhe subirá as escadas, enfeitadas de loureiro, com a boa nova da aleluia. Oxalá que no outro mundo ela tenha a visão gloriosa da ressurreição em que acreditava. Eu por cá fico ainda neste desespero agnóstico, que a sua partida tornou mais cruciante. Fui condenado a ser coveiro de todos os que pelo sangue me precederam e davam caução à minha humanidade.




Diário XIV

Miguel Torga




A irmã de Miguel Torga, Maria Correia "

Publicação de Miguel Torga - A Criação do Mundo

 SOBRE LER



" Um bom livro não tem de distrair --- tem de acrescentar "

Isabel da Nóbrega, Romancista 1925-2021

sábado, 7 de março de 2026

 ALA


António Lobo Antunes, foi um extraordinário escritor português e eu sinto-me extraordináriamente envergonhado de ter lido quase nada do que ele transmitiu através da sua obra literária. 


https://www.facebook.com/share/v/1F6s2MB2tf/

João Andarilho 


 ANTÓNIO LOBO ANTUNES 



João Andarilho 

segunda-feira, 8 de dezembro de 2025

 A MULHER, O CENTRO DO MUNDO 


"Não se nasce mulher, chega-se a ser"


Fonte: internet 


Simone de Beauvoir 

sábado, 20 de janeiro de 2024

 O LIVRO 📕


Mohammed Azis, segunda reza a crónica, é um vendedor de livros. Será mais apropriado o termo alfarrabista para descrevê-lo. Septuagenário, é marroquino e passa as horas consumido na leitura, cultivando-se. Diz que é o mais velho vendedor de livros de Rabat, desde há quatro décadas e surpreende quando, questionado sobre a razão de manter as portas abertas ao exterior deixando os cerca de 5 mil livros em árabe, francês e inglês sem vigilância, responder que quem não sabe ler não rouba livros e quem sabe, não é ladrão.


Fonte: Estoicismo e literatura 

Façam o favor de ler e serem felizes.

João Andarilho 

sábado, 23 de setembro de 2023

 

DESPERTAR *

"Assalta-me a visão de meu corpo nu e estendido sobre uma mesa de necrotério. Peles murchas e coladas a um esqueleto, um ventre sumido entre as cadeiras... O suicídio de uma mulher quase velha, que coisa repugnante e inútil! Minha vida por acaso já não é o começo da morte? Morrer para fugir; que novas decepções? Que novas dores? Há alguns anos talvez tivesse sido razoável destruir, num só impulso de rebeldia, todas as forças acumuladas dentro de mim para não as ver a consumirem-se, inactivas. Porém, o destino implacável roubou-me até o direito de procurar a morte; foi-me encurralando lenta, insensivelmente, numa velhice sem fervores, sem lembranças... sem passado."


"Aturdida, levanto a cabeça. Entrevejo o rosto vermelho e murcho de um estranho. Em seguida afasto-me violentamente, porque reconheço meu marido. Faz anos que olhava para ele sem vê-lo. Que velho me parece de repente! É possível que seja eu a companheira deste homem maduro? Lembro, no entanto, que tínhamos a mesma idade quando nos casámos."


"Daniel pega-me pelo braço e começa a andar com a maior naturalidade. Parece não ter dado importância alguma ao incidente. Lembro da noite do nosso casamento... Ele, por sua vez, finge agora uma absoluta ignorância da minha dor. (...) Sigo-o para levar a cabo uma infinidade de pequenos afazeres, para cumprir uma infinidade de frivolidades amenas; para chorar por hábito e sorrir por dever. Sigo-o para viver correctamente, para morrer correctamente alguma dia."


Maria L. Bombal in A Última Névoa 

* Título da minha autoria 

domingo, 16 de abril de 2023

HEMINGWAY 



É um dos escritores com quem me identifico, quer em termos da qualidade literária, quer em termos do seu pensar enquanto ser humano, fruto da sua experiência como jornalista e soldado em serviço em ambulâncias e hospitais de campanha, em zonas de conflito armado. A obra que mais me marcou como leitor foi, sem dúvida, "Por Quem os Sinos Dobram", publicada em 1940.


Suicidou-se a 2.7.1961. As razões para este dramático desfecho levou-as com ele. 


João Andarilho 



quinta-feira, 13 de janeiro de 2022

L'ALGÉRIE, SEULEMENT L'ALGÉRIE?


"C. L. : Comment expliquez-vous que vos compatriotes, après avoir souffert de l'islamisme, acceptant aujourd'hui de voir leur destin confisqué ?

Y. K. : C'est toute la question. Notre peuple a tellement souffert: guerre de libération, dictature, socialisme de pacotille, espionnite, arabisation politique, décennie noire avec plus d"une centaine de milliers de morts. Aujourd'hui, le peuple s'écrase devant une poignée d'arrivistes fortunés. Je ne comprends pas pourquoi il a baissé les bras subitement alors qu'il était à deux doigts de se moucher dans les étoiles. Nous avons oublié nos morts et nous avons tourné le dos a nos héros. À croire que nous avons choisi de nous auto-flageller, de nous faire violence en défigurant nos plus belles images, en contestant nos valeurs et notre talent, en servant les intérêts des autres nations au détriment de nos propres intérêts. J'ai essayé de répondre à cette question dans Qu'attendent les singes, notamment dans les chapitres 10 et 11. Le régime a réussi à corrompre et les cœurs et les esprits. Jusqu'au consciences. Par définition et par vocation naturelle, les consciences se situent aux-dessus des tentations. Elles assurent l' essentiel de la survie de l'humanité. Sans les consciences, il n'y aurait que chaos et barbarie. En Algérie, les consciences ont rendu les armes quand elles ne sont pas tout bonnement laissé acheter. Une telle démission, une telle volte-face, une telle attitude contre nature ne peut qu'envenimer davantage les frustrations. Les repères d'antan ont fichu le camp, les slogans sonnent creux, les principes sont foulés au pieds. Et dans cette déconfiture, chacun trouve sont compte. La corruption est devenue monnaie courante. Tout s'achète et tout se vend, y compris le devenir de la patrie. Comment expliquer que mes compatriotes n'arrivent pas à s'unir pour changer les choses ? Parce qu'ils ne se supporte pas. Ils ne s'entend pas parce qu'ils ne s'écoutent pas. Le régime en place a tout fait pour les désunir avant de les dresser les uns contre les autres. En accélérant l'encanaillement. Il ne laisse à personne le temps de se poser les bonnes questions. C'est la ruée sur les opportunités, la curée royale, et ceux qui sont à la traîne ont peur de ne même pas pouvoir se contenter des miettes. Les quelques esprits honnêtes sont dans le doute. Ils se demandent s'ils font bien de garder leurs mains propres quand elles ne sont pas carrément dans le cambouis. Bien sûr, il y a ceux qui s'indignent de ce qui nous arrive, mais ils se méfient trop les uns des autres pour luter ensemble... Quand je pense aux grands projets que nous nourrison pour notre pays à l'École des cadets ! Je ne pouvais dissocier mon bonheur de celui de l'Algérie. Je rêvais d'elle comme d'une égérie. Tiens, ça rime, Algérie et égérie. Je la voyais debout la tête dans les nuages, sereine et souveraine, parée de ses plus belles contrées, avec plein de soleil dans les yeux. Je voulais devenir un poète pour mériter de la chanter. "

Yasmina Khadra- écrivain algérien 

dans " La Baisser et la Morsure "


segunda-feira, 16 de agosto de 2021


TORGA



" Miramar, 12 de Agosto de 1967 – Sessenta anos. Felizmente que ninguém deu pela conta, e pude calmamente, secretamente, meditar na significação deste dia crucial. Até há pouco, ia contando. Trinta, quarenta, cinquenta… Não era a juventude , evidentemente, mas havia ainda pano para mangas. Mais vinte , mais quinze…Tempo de sobra, enfim. Agora é que toda a ilusão se desvaneceu. Nem quarteirão, nem dúzia. Inexorável, a razão apenas me promete a decadência e o desenlace, no molho amargo de que tudo está feito e por fazer. É essa, de resto, a grande lição de humildade que a vida nos dá , se a esclerose não lavrou de mais e consente ao espírito o resgate duma lúcida contrição. Vamos seguindo confiados pela estrada fora. De repente, olhamos para trás , e que terramoto de ilusões! O que parecia grande mede um palmo, o que julgávamos sólido abana, o que dava a impressão de voar, patinha. Incrédulos, esfregamos os olhos. Mas não há dúvida. Desacertos sobre desacertos, erros palmares, ingenuidades confrangedoras. O saco de viagem abarrotado de falências. E de nada vale perguntar se as coisas se poderiam passar de outra maneira. Os factos são irreversíveis. No meu caso, então, só por milagre. Comecei mal e tarde. Enquanto outros partiram do saber, eu parti do sofrimento. Nenhuma porta se me abriu sem eu a arrombar. Lutei contra a pobreza, lutei contra a ignorância , lutei contra a idade, lutei contra os homens, lutei contra Deus, lutei contra mim. Uma infância rolada, de bola à mercê dos pontapés do mundo, uma juventude esfalfada, de estafeta atrasado na maratona da cultura , uma maturidade crispada, de indesejável na pátria. A criança desaninhada e perplexa nas encruzilhadas do destino, o rapaz a tentar a ferro e fogo fazer-se gente , o homem cercado de incompreensões. De maneira que era praticamente impossível que a árvore desse outros frutos. Tudo se conjugou nela e fora dela para um Outono sáfaro, que verifico nesta singeleza despida de ilusões. E triste , mas não há voltas a dar-lhe. Resta-me apenas uma consolação: embora derrotado, consegui chegar ao fim da aventura na pureza com que a iniciei, e remir pela consciência dum velho poeta a sangrar a inocência dum jovem poeta de versos de pé quebrado.



Diário X





sábado, 19 de junho de 2021

 O ANJO


"Não, não era preciso as janelas abertas para o anjo poder entrar. O anjo passava pelas paredes assim como a farinha pela peneira, ou, melhor, assim como os raios de sol pelo vidro. E saía da mesma forma, com as pessoas nos braços, pois assim que as mãos do anjo tocavam nas pessoas também já as pessoas passavam pelas paredes como a farinha pela peneira, ou, melhor, na mesma pelo vidro como os raios do sol. 

Ficavam as pessoas, em tudo, como os anjos, tirante as asas, e só por isso precisavam que as levassem os anjos. Quando o anjo chegava, o dia mais claro parecia noite, comparado à claridade que espalhavam as asas do anjo. E por essa claridade como não havia outra logo se conhecia que chegava o anjo, antes até que chegasse de todo. As asas do anjo, qual de neve! Muitas, muitas mais vezes mais de neve do que a neve. E, mal que o anjo chegava, as pessoas, nem que lhes doesse muito fosse o que fosse, a cabeça, ou uma perna, deixavam já e já de sentir dores. Os olhos do anjo lavavam as dores assim como a água lava um copo. Também, ao chegar um anjo, as pessoas, por mais tristes, passavam a mais alegres do que nunca por nunca. O anjo ria-se para as pessoas e as pessoas riam-se para o anjo, estendiam-lhe os braços. "

Tomaz de Figueiredo in " A Toca do Lobo "



segunda-feira, 16 de novembro de 2020

NOBEL


NOBEL 


Hoje é o aniversário de Saramago. 

"Aprendi a não tentar convencer ninguém. O trabalho de convencer é uma falta de respeito, é uma tentativa de colonização do outro."

José Saramago

quinta-feira, 18 de junho de 2020




SARAMAGO

        Passam hoje dez anos do desaparecimento físico do Nobel da Língua Portuguesa, a nossa Pátria, José Saramago. Faleceu em Tias, nas Ilhas Canárias, para onde o levou o azedume ao execrável ex: primeiro-ministro Cavaco Silva.


João Andarilho



PUTÉFIOS


         Fez ontem 20 anos (17-06-1992) que foi atribuído ao Nobel da Literatura, José Saramago, o prémio da Associação Portuguesa de Escritores ao seu romance “ O Evangelho Segundo Jesus Cristo”, obra notável, vetada pelo espírito censório e iliteracia do Governo de Cavaco Silva, através do beato subsecretário de Estado, Sousa Lara, para o Prémio Literário Europeu de 1992;

João Andarilho

terça-feira, 13 de agosto de 2019



HONRA (ou falta dela)


Quando numa determinada comunidade existe um conceito muito enraizado, ao longo de ancestrais gerações, da honra no seu sentido mais lato apesar da pobreza material (que não da pobreza da nobreza do carácter e humanidade), estamos falados.
Tudo isto a propósito da leitura de um conto de William Saroyan, inserido num pequeno livrinho de contos "Humorísticos" de vários outros autores, publicado pelo "Diário de Notícias"/"Jornal de Notícias" em Agosto de 2011 e editado pela "Rosto Editora, Lda", que gentilmente me foi ofertado pelo meu amigo JF, autor do blogue "Planando no Mundo Cão", com uma "desavergonhada" dedicatória que, "envergonhado", agradeço.


*
« O agricultor observou avidamente o cavalo.
- Bom dia, filhos dos meus amigos - disse ele. - Como se chama o vosso cavalo?
- Meu coração - disse o meu primo Mourad em arménio -
- Um belo nome - disse John Byro, - para um belo cavalo. Podia jurar que este é o cavalo que me foi roubado há muitas semanas atrás. Posso ver-lhe os dentes?
- Claro - disse Mourad.
O agricultor inspeccionou os dentes do cavalo.
- Dente por dente - disse ele. - Se não conhecesse os teus pais, podia jurar que este é o meu cavalo. A tua família é conhecida pela honestidade e eu sei disso. No entanto, este cavalo é o gémeo do meu cavalo. Um homem desconfiado acreditaria nos seus olhos e não no seu coração. Bom dia, meus jovens amigos.
- Bom dia, John Byro - disse o meu primo Mourad.
Cedo na manhã seguinte levámos o cavalo para a vinha de John Byro  e colocámo-lo no celeiro. Os cães seguiram-nos sem fazerem barulho.
- Os cães - sussurrei ao meu primo Mourad. - Pensei que iam ladrar.
- Ladrariam a outra pessoa - disse ele. - Tenho jeito para os cães.
O meu primo Mourad abraçou o cavalo, encostou o seu nariz ao nariz do cavalo, deu-lhe uma palmadinha e depois fomos embora. Nessa tarde John Byro foi a nossa casa na sua carroça e mostrou à minha mãe o cavalo que tinha sido roubado e devolvido.
- Não sei o que pensar - disse ele. - O cavalo está mais forte do que nunca. Melhor comportado, também. Agradeço a Deus.
O meu tio Khosgrove, que estava na sala de estar, irritou-se e gritou: - Cala-te, homem, cala-te. O teu cavalo voltou. Não faças caso.»


João Andarilho

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019




CURTO E CONCISO


Que me desculpem os meus especiais amigos J. C. e M.S., mas achei por bem fazer uma analogia entre ambos e as personalidades descritas a páginas tantas da "Colmeia" de C.J.C. , ou sejam, o Sr. Ibrain de Ostolaza y Bofarull e um outro personagem um marido que regressava do seu trabalho
Após a verbalização de tão distintas alegações por parte do ilustre causídico ouvir uma barbaridade daquelas é obra!

Reza assim:

«O Sr. Ostolaza y Bofarull mirou-se ao espelho, acariciou a barba e exclamou: 
- Senhores académicos: não queria fazer-vos perder mais tempo, etc, etc. (sim, isto sai perfeito... a cabeça com um gesto arrogante... tenho de ter cuidado com os punhos, porque às vezes saem de mais, parece que vão levantar voo.)
O Sr. Ibrain acendeu o cachimbo e começou a andar para trás e para diante. Com uma mão nas costas da cadeira e com a outra erguida, segurando o cachimbo, continuou:
- Como admitir, como quer o senhor Clemente de Diego, que o usacapião seja o modo de adquirir direitos pelo exercício dos mesmos? Salta à vista a escassa consistência do argumento, senhores académicos. Perdoem-me a insistência e permitam-me que volte, mais uma vez, à minha velha invocação da lógica; sem ela, nada é possível no mundo das ideias. (Aqui, provavelmente, haverá murmúrios de aprovação.) Não é evidente, ilustres académicos, que para usar algo é necessário possuí-lo? Adivinho no vosso olhar que pensais assim. (Aqui, um deles talvez diga em voz baixa: «evidentemente, evidentemente.»)
Deste modo, se para usar algo é necessário possuí-lo, poderemos, pondo a oração na voz passiva, assegurar que nada pode ser usado sem uma prévia posse.
Ibrain avançou um pé no tablado e acariciou, com um gesto elegante, as lapelas da sua batina.. Ou melhor: do seu fraque. Depois sorriu.
- Pois bem, senhores académicos: assim como para usar algo há que possuí-lo, para possuir algo há que adquiri-lo, já que nada, absolutamente nada, pode ser possuído sem uma prévia aquisição. (Talvez me interrompam com os aplausos. Convém estar preparado.)
A voz de Ibrain suava solene como a de um fagote. Do outro lado do tabique  um marido que regressava do trabalho perguntou à mulher:
- A pequerrucha já fez cocó?


Ibrain sentiu um pouco de frio e aconchegou o cachecol. No espelho destacava-se um lenço preto - o que costuma usar todas as tardes com o fraque.»

João Andarilho

  AZIAGO Hoje não está a correr bem o dia. Saio em direcção ao metro Oriente. O objetivo claro é ir à Gulbenkian. Saio em São Sebastião para...