Aventura, arte, literatura, coisas da vida, banalidades e curiosidades
terça-feira, 21 de julho de 2026
O Sonho
Andando pelas areias
decidi te deixar.
Pisava um barro escuro
que tremia,
me atolando e saindo
decidi que saíras
de mim, que me pesavas
como pedra cortante,
preparei tua perda
passo a passo:
cortar tuas raízes,
soltar-te só no vento.
Ai, nesse minuto,
coração meu, um sonho
com asas terríveis
te cobria.
Te sentias tragada pelo barro,
e me chamavas, mas não te acudia,
tu ias imóvel,
sem te defender
até que te afogavas na boca da areia.
Depois
minha decisão encontrou teu sonho,
de dentro da rotura
que partia nossa alma,
surgimos limpos outra vez, desnudos,
nos amando,
sem sonho, sem areia, completos e radiantes,
selados pelo fogo.
Pablo Neruda
quarta-feira, 17 de junho de 2026
BOLERO
BOLERO DO CORONEL SENSÍVEL
QUE FEZ AMOR EM MONSANTO
(António Lobo Antunes/Vitorino)
Eu que me comovo
Por tudo e por nada
Deixei-te parada
Na berma da estrada
Usei o teu corpo
Paguei o teu preço
Esqueci o teu nome
Limpei-me com o lenço
Olhei-te a cintura
De pé no alcatrão
Levantei-te as saias
Deitei-te no banco
Num bosque de faias
De mala na mão
Nem sequer falaste
Nem sequer beijaste
Nem sequer gemeste,
Mordeste, abraçaste
Quinhentos escudos
Foi o que disseste
Tinhas quinze anos
Dezasseis, dezassete
Cheiravas a mato
À sopa dos pobres
A infância sem quarto
A suor, a chiclete
Saíste do carro
Alisando a blusa
Espiei da janela
Rosto de aguarela
Coxa em semifusa
Soltei o travão
Voltei para casa
De chaves na mão
Sobrancelha em asa
Disse: fiz serão
Ao filho e à mulher
Repeti a fruta
Acabei a ceia
Larguei o talher
Estendi-me na cama
De ouvido à escuta
E perna cruzada
Que de olhos em chama
Só tinha na ideia
Teu corpo parado
Na berma da estrada
Eu que me comovo
Por tudo e por nada.
sexta-feira, 26 de dezembro de 2025
sexta-feira, 21 de novembro de 2025
AMAR
—Então o que vamos fazer?
— Amor.
—Tens a certeza?
—Sim.
—Bem, vou-me despindo.
—E porque estás a tirar a tua roupa?
—Então, para fazer.
—Quem te disse que tens de despir para FAZER AMOR?
—Pois que eu saiba é assim que se faz.
—Não, essa não é a única maneira de fazer Amor.
—E é como então?
— Apenas deixa a roupa vestida e conversemos até cansarmos, riamos por nada e por tudo, olhemos devagar até tentarmos decifrar.
Comigo não precisas despir de corpo, mas de alma, apenas olhemo-nos até ficarmos sem palavras, e ali, nesse instante em que as palavras são insuficientes para explicar o que sentimos, nesse silêncio infinito finalmente poderemos tocar-nos Percebes?
—Tocar-nos?
—Sim, tocar-nos com a ternura dócil de uma carícia que se expanda docemente até morrer num abraço.
—Ai, que lindo.
—Olha, deixas-me segurar a tua mão?
—Sim.
—Sentes? essa é uma das maneiras de fazer amor.
É sobre isso
Apenas deixa a roupa vestida e vamos conversar até cansar, vamos só olhar a boca, os cílios, os lábios por um tempo e se o beijo for necessário virá sem pedir licença.
Vamos conversar até conhecermos todas as nossas memórias, até sabermos os nossos segredos mais profundos, apenas deixa-me olhar-te até ao mais extremo e requintado deleite, deixa-me ver a ALMA até ao cansaço, até que estes olhos se rendam e me obriguem a baixar as pálpebras incitando-me a dormir.
—E vais forçá-los a ficar abertos?
—Sim, para te olhar a noite toda...
Só a ti "
sábado, 8 de novembro de 2025
RICARDO ELIÉCER NEFTALÍ REYES BASOALTO
aliás, Pablo Neruda, poeta, diplomático e político chileno, militante comunista, nascido em 1904, falecido em 1973, pouco tempo depois do golpe militar que assassinou o presidente Allende.
O amor, a natureza, a solidão e o comprometimento político e social são elementos centrais na sua poesia. Vinte Poemas de Amor e uma Canção Desesperada de 1924 e Canto Geral de 1950, destacam-se na sua obra.
João Andarilho
sexta-feira, 25 de julho de 2025
POESIA É...
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| Créditos Vila dos Poetas |
Eu: Meu caro Poeta e camarada,
colocaste-me nesta enrascada, agora tira-me dela!
Deste-me livros para ler, ensinaste-me a usar a língua
muito mais do que para lamber selos.
A culpa de eu estar apaixonado é tua!
Poeta: Não senhor, não tenho nada a ver com isso.
Dei-te os meus livros sim, mas não te autorizei a roubar os meus poemas.
Deste à Beatriz o poema que escrevi à Matilde.
Eu: Não Poeta, a poesia não é de quem a escreve, mas de quem precisa dela!
Vila dos Poetas
quinta-feira, 15 de maio de 2025
quarta-feira, 8 de janeiro de 2025
RESIGNAÇÃO (título meu)
Tive de aceitar...
Aceitar o tempo - esse
mistério esquivo que foge à
minha compreensão.
Aceitar que a eternidade é um
enigma para a mente mortal.
Que meu corpo, frágil e
efémero, não é imortal.
Que ele envelhecerá, lentamente.
Tive de aceitar que somos
feitos de memórias,
mas também de
esquecimentos.
De desejos não realizados,
ruídos e silêncios.
De sussurros fugazes e
noites estreladas,
tecendo histórias em
detalhes subtis.
Tive de compreender que
tudo é passageiro,
que nada dura para sempre,
que meus filhos um dia
voariam,
esculpindo seus próprios
caminhos, longe de mim.
Eles nunca me pertenceram,
como imaginei por um
instante.
Sua liberdade para ir, vir e
escolher
era tão preciosa quanto
o amor que eu nutria por eles.
Tive que aceitar que varrer
minha calçada todas as
manhãs
era só um doce engano.
Um gesto para convencer-me
de que aquele pequeno canto
do mundo
era meu, quando nunca foi.
Minha casa, meu abrigo -
um tecto transitório que, um
dia, abrigará outra vidas,
outras histórias.
Tive de compreender que
meu apego às coisas,
aos seres, aos lugares,
só tornará mais doloroso o
momento de dizer adeus.
As árvores que plantei,
as flores que cuidei,
os pássaros que eu ouvi cantar
-
todos estavam apenas de
passagem,
assim como eu.
Tive de aceitar meus defeitos,
minha fragilidade,
minha condição de ser fugaz,
condenado a desaparecer,
enquanto a vida continuará
fluindo,
como um rio indiferente à
minha memória.
E tive de aceitar que, um dia,
eu seria esquecido.
Por isso, cuidemos da nossa
alma,
pois ela é a única coisa
que verdadeiramente nos
pertence.
Sílvia Schmitt
sexta-feira, 15 de novembro de 2024
O OPERÁRIO EM CONSTRUÇÃO
Onde antes só havia chão.
Como um pássaro sem asas
Ele subia com as casas
Que lhe brotavam da mão.
Mas tudo desconhecia
De sua grande missão:
Não sabia, por exemplo
Que a casa de um homem é um templo
Um templo sem religião
Como tampouco sabia
Que a casa que ele fazia
Sendo a sua liberdade
Era a sua escravidão.
De fato, como podia
Um operário em construção
Compreender por que um tijolo
Valia mais do que um pão?
Tijolos ele empilhava
Com pá, cimento e esquadria
Quanto ao pão, ele o comia...
Mas fosse comer tijolo!
E assim o operário ia
Com suor e com cimento
Erguendo uma casa aqui
Adiante um apartamento
Além uma igreja, à frente
Um quartel e uma prisão:
Prisão de que sofreria
Não fosse, eventualmente
Um operário em construção.
Mas ele desconhecia
Esse fato extraordinário:
Que o operário faz a coisa
E a coisa faz o operário.
De forma que, certo dia
À mesa, ao cortar o pão
O operário foi tomado
De uma súbita emoção
Ao constatar assombrado
Que tudo naquela mesa
- Garrafa, prato, facão -
Era ele quem os fazia
Ele, um humilde operário,
Um operário em construção.
Olhou em torno: gamela
Banco, enxerga, caldeirão
Vidro, parede, janela
Casa, cidade, nação!
Tudo, tudo o que existia
Era ele quem o fazia
Ele, um humilde operário
Um operário que sabia
Exercer a profissão.
Ah, homens de pensamento
Não sabereis nunca o quanto
Aquele humilde operário
Soube naquele momento!
Naquela casa vazia
Que ele mesmo levantara
Um mundo novo nascia
De que sequer suspeitava.
O operário emocionado
Olhou sua própria mão
Sua rude mão de operário
De operário em construção
E olhando bem para ela
Teve um segundo a impressão
De que não havia no mundo
Coisa que fosse mais bela.
Foi dentro da compreensão
Desse instante solitário
Que, tal sua construção
Cresceu também o operário.
Cresceu em alto e profundo
Em largo e no coração
E como tudo que cresce
Ele não cresceu em vão
Pois além do que sabia
- Exercer a profissão -
O operário adquiriu
Uma nova dimensão:
A dimensão da poesia.
E um fato novo se viu
Que a todos admirava:
O que o operário dizia
Outro operário escutava.
E foi assim que o operário
Do edifício em construção
Que sempre dizia sim
Começou a dizer não.
E aprendeu a notar coisas
A que não dava atenção:
Notou que sua marmita
Era o prato do patrão
Que sua cerveja preta
Era o uísque do patrão
Que seu macacão de zuarte
Era o terno do patrão
Que o casebre onde morava
Era a mansão do patrão
Que seus dois pés andarilhos
Eram as rodas do patrão
Que a dureza do seu dia
Era a noite do patrão
Que sua imensa fadiga
Era amiga do patrão.
E o operário disse: Não!
E o operário fez-se forte
Na sua resolução.
Como era de se esperar
As bocas da delação
Começaram a dizer coisas
Aos ouvidos do patrão.
Mas o patrão não queria
Nenhuma preocupação
- "Convençam-no" do contrário -
Disse ele sobre o operário
E ao dizer isso sorria.
Dia seguinte, o operário
Ao sair da construção
Viu-se súbito cercado
Dos homens da delação
E sofreu, por destinado
Sua primeira agressão.
Teve seu rosto cuspido
Teve seu braço quebrado
Mas quando foi perguntado
O operário disse: Não!
Em vão sofrera o operário
Sua primeira agressão
Muitas outras se seguiram
Muitas outras seguirão.
Porém, por imprescindível
Ao edifício em construção
Seu trabalho prosseguia
E todo o seu sofrimento
Misturava-se ao cimento
Da construção que crescia.
Sentindo que a violência
Não dobraria o operário
Um dia tentou o patrão
Dobrá-lo de modo vário.
De sorte que o foi levando
Ao alto da construção
E num momento de tempo
Mostrou-lhe toda a região
E apontando-a ao operário
Fez-lhe esta declaração:
- Dar-te-ei todo esse poder
E a sua satisfação
Porque a mim me foi entregue
E dou-o a quem bem quiser.
Dou-te tempo de lazer
Dou-te tempo de mulher.
Portanto, tudo o que vês
Será teu se me adorares
E, ainda mais, se abandonares
O que te faz dizer não.
Disse, e fitou o operário
Que olhava e que refletia
Mas o que via o operário
O patrão nunca veria.
O operário via as casas
E dentro das estruturas
Via coisas, objetos
Produtos, manufaturas.
Via tudo o que fazia
O lucro do seu patrão
E em cada coisa que via
Misteriosamente havia
A marca de sua mão.
E o operário disse: Não!
- Loucura! - gritou o patrão
Não vês o que te dou eu?
- Mentira! - disse o operário
Não podes dar-me o que é meu.
E um grande silêncio fez-se
Dentro do seu coração
Um silêncio de martírios
Um silêncio de prisão.
Um silêncio povoado
De pedidos de perdão
Um silêncio apavorado
Com o medo em solidão.
Um silêncio de torturas
E gritos de maldição
Um silêncio de fraturas
A se arrastarem no chão.
E o operário ouviu a voz
De todos os seus irmãos
Os seus irmãos que morreram
Por outros que viverão.
Uma esperança sincera
Cresceu no seu coração
E dentro da tarde mansa
Agigantou-se a razão
De um homem pobre e esquecido
Razão porém que fizera
Em operário construído
O operário em construção.
"O Operário em Construção" (Vinícius de Moraes. Rio de Janeiro, 1959)
quinta-feira, 25 de abril de 2024
QUANDO VIERES
Encontrarás tudo como quando partiste.
A mãe bordará a um canto da sala...
Apenas os cabelos mais brancos
E o olhar mais cansado.
O pai fumará o cigarro depois do jantar
E lerá o jornal.
Quando vieres
Só não encontrarás aquela menina de saias curtas
E cabelos entrançados
Que deixaste um dia.
Mas os meus filhos brincarão nos teus joelhos
Como se te tivessem sempre conhecido.
Quando vieres
nenhum de nós dirá nada
mas a mãe largará o bordado
o pai largará o jornal
as crianças os brinquedos
e abriremos para ti os nossos corações.
Pois quando tu vieres
Não és só tu que vens
É todo um mundo novo que despontará lá fora.
«Maria Eugénia Cunhal» - In «Silêncio de Vidro»
quarta-feira, 13 de setembro de 2023
A POETISA
13.9.1923 -13.9.2023
"Já que o coito, diz Morgado, tem como fim cristalino, preciso e imaculado fazer menino ou menina e cada vez que o varão sexual petisco manduca, temos na procriação prova de que houve truca-truca, sendo só pai de um rebento, lógica é a conclusão de que o viril instrumento só usou - parca ração! - uma vez. E se a função faz um órgão - diz o ditado consumada essa excepção ficou capado o Morgado"
Natália Correia
sexta-feira, 21 de julho de 2023
ROSA
És a mais perfeita forma de ser flor.
Cinco são as pétalas que te vestem
Incontáveis os acúleos que as protegem
Divinal a Arte que pincelou a tua cor.
Teu íntimo, misterioso e sedutor
Exala tal fragrância perfumante
Que o incauto em seu labor
Entontece inebriante.
É tua natureza ser bela
Brilhante e sedutora,
Porém simples e singela.
Rosa é teu nome de flor
Cor que realça o feminino
A forma do teu esplendor.
Rendido a tão grande encanto
Mais não pude que escrever
Estes versos como em pranto.
João Andarilho
quarta-feira, 18 de janeiro de 2023
GIL EANNES
FERNANDO PESSOA
MAR PORTUGUEZ
Ó MAR SALGADO, quanto do teu sal
São lagrimas de Portugal !
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão resaram !
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar
Valeu a pena ? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quere passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abysmo deu,
Mas nelle é que espelhou o céu.
quarta-feira, 18 de agosto de 2021
LORCA
terça-feira, 26 de janeiro de 2021
terça-feira, 1 de dezembro de 2020
AUTOPSIGRAFIA
Fernando Pessoa morreu em 30 de Novembro de 1935
O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.
E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.
E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.
«Fernando Pessoa», in 'Cancioneiro'
Trecho do poema Autopsigrafia
domingo, 26 de maio de 2019
quarta-feira, 3 de abril de 2019
apesar de tudo,
não o faças.
a menos que saia sem perguntar do teu
coração, da tua cabeça, da tua boca
das tuas entranhas,
não o faças.
se tens que estar horas sentado
a olhar para um ecrã de computador
ou curvado sobre a tua
máquina de escrever
procurando as palavras,
não o faças.
se o fazes por dinheiro ou
fama,
não o faças.
se o fazes para teres
mulheres na tua cama,
não o faças.
se tens que te sentar e
reescrever uma e outra vez,
não o faças.
se dá trabalho só pensar em fazê-lo,
não o faças.
se tentas escrever como outros escreveram,
não o faças.
a gritar,
então espera pacientemente.
se nunca sair de ti a gritar,
faz outra coisa.
ou namorada ou namorado
ou pais ou a quem quer que seja,
não estás preparado.
não sejas como milhares de
pessoas que se consideram escritores,
não sejas chato nem aborrecido e
pedante, não te consumas com auto-devoção.
as bibliotecas de todo o mundo têm
bocejado até
adormecer
com os da tua espécie.
não sejas mais um.
não o faças.
a menos que saia da
tua alma como um míssil,
a menos que o estar parado
te leve à loucura ou
ao suicídio ou homicídio,
não o faças.
a menos que o sol dentro de ti
te queime as tripas,
não o faças.
e se foste escolhido,
vai acontecer
por si só e continuará a acontecer
até que tu morras ou morra em ti.
e nunca houve.
terça-feira, 1 de janeiro de 2019
João Soneto
AZIAGO Hoje não está a correr bem o dia. Saio em direcção ao metro Oriente. O objetivo claro é ir à Gulbenkian. Saio em São Sebastião para...
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DOENTE MENTAL, CRIMINOSO, MENTIROSO COMPULSIVO, PEDÓFILO Eis o terrorista n° 1, à frente do regime criminoso que governa os EUA e subverte...
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74° Aniversário Da Vitória sobre o nazi-fascismo... 20 000 000 de mortos sofridos pela URSS... Lembrar para não voltar a r...













