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terça-feira, 21 de julho de 2026




O Sonho


Andando pelas areias
decidi te deixar.

Pisava um barro escuro
que tremia,
me atolando e saindo
decidi que saíras
de mim, que me pesavas
como pedra cortante,
preparei tua perda
passo a passo:
cortar tuas raízes,
soltar-te só no vento.

Ai, nesse minuto,
coração meu, um sonho
com asas terríveis
te cobria.

Te sentias tragada pelo barro,
e me chamavas, mas não te acudia,
tu ias imóvel,
sem te defender
até que te afogavas na boca da areia.

Depois
minha decisão encontrou teu sonho,
de dentro da rotura
que partia nossa alma,
surgimos limpos outra vez, desnudos,
nos amando,
sem sonho, sem areia, completos e radiantes,
selados pelo fogo.

Pablo Neruda 




quarta-feira, 17 de junho de 2026

 

BOLERO




BOLERO DO CORONEL SENSÍVEL

QUE FEZ AMOR EM MONSANTO

(António Lobo Antunes/Vitorino)

Eu que me comovo

Por tudo e por nada

Deixei-te parada

Na berma da estrada

Usei o teu corpo

Paguei o teu preço

Esqueci o teu nome

Limpei-me com o lenço

Olhei-te a cintura

De pé no alcatrão

Levantei-te as saias

Deitei-te no banco

Num bosque de faias

De mala na mão

Nem sequer falaste

Nem sequer beijaste

Nem sequer gemeste,

Mordeste, abraçaste

Quinhentos escudos

Foi o que disseste

Tinhas quinze anos

Dezasseis, dezassete

Cheiravas a mato

À sopa dos pobres

A infância sem quarto

A suor, a chiclete

Saíste do carro

Alisando a blusa

Espiei da janela

Rosto de aguarela

Coxa em semifusa

Soltei o travão

Voltei para casa

De chaves na mão

Sobrancelha em asa

Disse: fiz serão

Ao filho e à mulher

Repeti a fruta

Acabei a ceia

Larguei o talher

Estendi-me na cama

De ouvido à escuta

E perna cruzada

Que de olhos em chama

Só tinha na ideia

Teu corpo parado

Na berma da estrada

Eu que me comovo

Por tudo e por nada.


André Carrilho 


sexta-feira, 26 de dezembro de 2025



na hora de pôr a mesa, éramos cinco: o meu pai, a minha mãe, as minhas irmãs
e eu. depois, a minha irmã mais velha
casou-se. depois, a minha irmã mais nova
casou-se. depois, o meu pai morreu. hoje,
na hora de pôr a mesa, somos cinco,
menos a minha irmã mais velha que está
na casa dela, menos a minha irmã mais
nova que está na casa dela, menos o meu
pai, menos a minha mãe viúva. cada um
deles é um lugar vazio nesta mesa onde
como sozinho. mas irão estar sempre aqui.
na hora de pôr a mesa, seremos sempre cinco.
enquanto um de nós estiver vivo, seremos
sempre cinco.


José Luís Peixoto

sexta-feira, 21 de novembro de 2025

 AMAR





"COMO FAZER AMOR"


—Então o que vamos fazer?

— Amor.

—Tens a certeza?

—Sim.

—Bem, vou-me despindo.

—E porque estás a tirar a tua roupa?

—Então, para fazer.

—Quem te disse que tens de despir para FAZER AMOR?

—Pois que eu saiba é assim que se faz.

—Não, essa não é a única maneira de fazer Amor.

—E é como então?

— Apenas deixa a roupa vestida e conversemos até cansarmos, riamos por nada e por tudo, olhemos devagar até tentarmos decifrar.

Comigo não precisas despir de corpo, mas de alma, apenas olhemo-nos até ficarmos sem palavras, e ali, nesse instante em que as palavras são insuficientes para explicar o que sentimos, nesse silêncio infinito finalmente poderemos tocar-nos Percebes?

—Tocar-nos?

—Sim, tocar-nos com a ternura dócil de uma carícia que se expanda docemente até morrer num abraço.

—Ai, que lindo.

—Olha, deixas-me segurar a tua mão?

—Sim.

—Sentes? essa é uma das maneiras de fazer amor.


É sobre isso

 Apenas deixa a roupa vestida e vamos conversar até cansar, vamos só olhar a boca, os cílios, os lábios por um tempo e se o beijo for necessário virá sem pedir licença.


Vamos conversar até conhecermos todas as nossas memórias, até sabermos os nossos segredos mais profundos, apenas deixa-me olhar-te até ao mais extremo e requintado deleite, deixa-me ver a ALMA até ao cansaço, até que estes olhos se rendam e me obriguem a baixar as pálpebras incitando-me a dormir.


—E vais forçá-los a ficar abertos?

—Sim, para te olhar a noite toda...

Só a ti "


-Gabriel García Márquez

sábado, 8 de novembro de 2025

 RICARDO ELIÉCER NEFTALÍ  REYES BASOALTO


 aliás, Pablo Neruda, poeta, diplomático e político chileno, militante comunista, nascido em 1904, falecido em 1973, pouco tempo depois do golpe militar que assassinou o presidente Allende

O amor, a natureza, a solidão e o comprometimento político e social são elementos centrais na sua poesia. Vinte Poemas de Amor e uma Canção Desesperada de 1924 e Canto Geral de 1950, destacam-se na sua obra.


João Andarilho 

sexta-feira, 25 de julho de 2025

 

POESIA É...


Créditos Vila dos Poetas

Ser poeta é...


Eu: Meu caro Poeta e camarada,

                    colocaste-me nesta enrascada, agora tira-me dela!

                    Deste-me livros para ler, ensinaste-me a usar a língua

                    muito mais do que para lamber selos.

                    A culpa de eu estar apaixonado é tua!


Poeta: Não senhor, não tenho nada a ver com isso.

            Dei-te os meus livros sim, mas não te autorizei a roubar os meus poemas.

            Deste à Beatriz o poema que escrevi à Matilde.


Eu: Não Poeta, a poesia não é de quem a escreve, mas de quem precisa dela!


Vila dos Poetas

quinta-feira, 15 de maio de 2025

  CEM POR CENTO DE ACORDO 




"Só há três maneiras de viver neste mundo:

Ou bêbado, ou apaixonado ou poeta"

Mário Cesariny


quarta-feira, 8 de janeiro de 2025

 

RESIGNAÇÃO (título meu)




Tive de aceitar...


Aceitar o tempo - esse

mistério esquivo que foge à

minha compreensão.

Aceitar que a eternidade é um

enigma para a mente mortal.

Que meu corpo, frágil e

efémero, não é imortal.

Que ele envelhecerá, lentamente.


Tive de aceitar que somos 

feitos de memórias,

mas também de

esquecimentos.

De desejos não realizados,

ruídos e silêncios.

De sussurros fugazes e

noites estreladas,

tecendo histórias em

detalhes subtis.


Tive de compreender que

tudo é passageiro,

que nada dura para sempre, 

que meus filhos um dia

voariam,

esculpindo seus próprios 

caminhos, longe de mim.

Eles nunca me pertenceram,

como imaginei por um 

instante.

Sua liberdade para ir, vir e

escolher

era tão preciosa quanto

o amor que eu nutria por eles.


Tive que aceitar que varrer

minha calçada todas as 

manhãs

era só um doce engano.

Um gesto para convencer-me

de que aquele pequeno canto

do mundo

era meu, quando nunca foi.

Minha casa, meu abrigo -

um tecto transitório que, um

dia, abrigará outra vidas, 

outras histórias.


Tive de compreender que

meu apego às coisas,

aos seres, aos lugares,

só tornará mais doloroso o

momento de dizer adeus.

As árvores que plantei,

 as flores que cuidei,

os pássaros que eu ouvi cantar

-

todos estavam apenas de 

passagem, 

assim como eu.


Tive de aceitar meus defeitos,

minha fragilidade,

minha condição de ser fugaz,

condenado a desaparecer,

enquanto a vida continuará 

fluindo,

como um rio indiferente à 

minha  memória.


E tive de aceitar que, um dia,

eu seria esquecido.


Por isso, cuidemos da nossa 

alma,

pois ela é a única coisa

que verdadeiramente nos 

pertence.


Sílvia Schmitt


sexta-feira, 15 de novembro de 2024

 

O OPERÁRIO EM CONSTRUÇÃO 




Era ele que erguia casas
Onde antes só havia chão.
Como um pássaro sem asas
Ele subia com as casas
Que lhe brotavam da mão.
Mas tudo desconhecia
De sua grande missão:
Não sabia, por exemplo
Que a casa de um homem é um templo
Um templo sem religião
Como tampouco sabia
Que a casa que ele fazia
Sendo a sua liberdade
Era a sua escravidão.
De fato, como podia
Um operário em construção
Compreender por que um tijolo
Valia mais do que um pão?
Tijolos ele empilhava
Com pá, cimento e esquadria
Quanto ao pão, ele o comia...
Mas fosse comer tijolo!
E assim o operário ia
Com suor e com cimento
Erguendo uma casa aqui
Adiante um apartamento
Além uma igreja, à frente
Um quartel e uma prisão:
Prisão de que sofreria
Não fosse, eventualmente
Um operário em construção.
Mas ele desconhecia
Esse fato extraordinário:
Que o operário faz a coisa
E a coisa faz o operário.
De forma que, certo dia
À mesa, ao cortar o pão
O operário foi tomado
De uma súbita emoção
Ao constatar assombrado
Que tudo naquela mesa
- Garrafa, prato, facão -
Era ele quem os fazia
Ele, um humilde operário,
Um operário em construção.
Olhou em torno: gamela
Banco, enxerga, caldeirão
Vidro, parede, janela
Casa, cidade, nação!
Tudo, tudo o que existia
Era ele quem o fazia
Ele, um humilde operário
Um operário que sabia
Exercer a profissão.
Ah, homens de pensamento
Não sabereis nunca o quanto
Aquele humilde operário
Soube naquele momento!
Naquela casa vazia
Que ele mesmo levantara
Um mundo novo nascia
De que sequer suspeitava.
O operário emocionado
Olhou sua própria mão
Sua rude mão de operário
De operário em construção
E olhando bem para ela
Teve um segundo a impressão
De que não havia no mundo
Coisa que fosse mais bela.
Foi dentro da compreensão
Desse instante solitário
Que, tal sua construção
Cresceu também o operário.
Cresceu em alto e profundo
Em largo e no coração
E como tudo que cresce
Ele não cresceu em vão
Pois além do que sabia
- Exercer a profissão -
O operário adquiriu
Uma nova dimensão:
A dimensão da poesia.
E um fato novo se viu
Que a todos admirava:
O que o operário dizia
Outro operário escutava.
E foi assim que o operário
Do edifício em construção
Que sempre dizia sim
Começou a dizer não.
E aprendeu a notar coisas
A que não dava atenção:
Notou que sua marmita
Era o prato do patrão
Que sua cerveja preta
Era o uísque do patrão
Que seu macacão de zuarte
Era o terno do patrão
Que o casebre onde morava
Era a mansão do patrão
Que seus dois pés andarilhos
Eram as rodas do patrão
Que a dureza do seu dia
Era a noite do patrão
Que sua imensa fadiga
Era amiga do patrão.
E o operário disse: Não!
E o operário fez-se forte
Na sua resolução.
Como era de se esperar
As bocas da delação
Começaram a dizer coisas
Aos ouvidos do patrão.
Mas o patrão não queria
Nenhuma preocupação
- "Convençam-no" do contrário -
Disse ele sobre o operário
E ao dizer isso sorria.
Dia seguinte, o operário
Ao sair da construção
Viu-se súbito cercado
Dos homens da delação
E sofreu, por destinado
Sua primeira agressão.
Teve seu rosto cuspido
Teve seu braço quebrado
Mas quando foi perguntado
O operário disse: Não!
Em vão sofrera o operário
Sua primeira agressão
Muitas outras se seguiram
Muitas outras seguirão.
Porém, por imprescindível
Ao edifício em construção
Seu trabalho prosseguia
E todo o seu sofrimento
Misturava-se ao cimento
Da construção que crescia.
Sentindo que a violência
Não dobraria o operário
Um dia tentou o patrão
Dobrá-lo de modo vário.
De sorte que o foi levando
Ao alto da construção
E num momento de tempo
Mostrou-lhe toda a região
E apontando-a ao operário
Fez-lhe esta declaração:
- Dar-te-ei todo esse poder
E a sua satisfação
Porque a mim me foi entregue
E dou-o a quem bem quiser.
Dou-te tempo de lazer
Dou-te tempo de mulher.
Portanto, tudo o que vês
Será teu se me adorares
E, ainda mais, se abandonares
O que te faz dizer não.
Disse, e fitou o operário
Que olhava e que refletia
Mas o que via o operário
O patrão nunca veria.
O operário via as casas
E dentro das estruturas
Via coisas, objetos
Produtos, manufaturas.
Via tudo o que fazia
O lucro do seu patrão
E em cada coisa que via
Misteriosamente havia
A marca de sua mão.
E o operário disse: Não!
- Loucura! - gritou o patrão
Não vês o que te dou eu?
- Mentira! - disse o operário
Não podes dar-me o que é meu.
E um grande silêncio fez-se
Dentro do seu coração
Um silêncio de martírios
Um silêncio de prisão.
Um silêncio povoado
De pedidos de perdão
Um silêncio apavorado
Com o medo em solidão.
Um silêncio de torturas
E gritos de maldição
Um silêncio de fraturas
A se arrastarem no chão.
E o operário ouviu a voz
De todos os seus irmãos
Os seus irmãos que morreram
Por outros que viverão.
Uma esperança sincera
Cresceu no seu coração
E dentro da tarde mansa
Agigantou-se a razão
De um homem pobre e esquecido
Razão porém que fizera
Em operário construído
O operário em construção.


"O Operário em Construção" (Vinícius de Moraes. Rio de Janeiro, 1959)

quinta-feira, 25 de abril de 2024

 QUANDO VIERES




Quando vieres

Encontrarás tudo como quando partiste.
A mãe bordará a um canto da sala...
Apenas os cabelos mais brancos
E o olhar mais cansado.
O pai fumará o cigarro depois do jantar
E lerá o jornal.
Quando vieres
Só não encontrarás aquela menina de saias curtas
E cabelos entrançados
Que deixaste um dia.
Mas os meus filhos brincarão nos teus joelhos
Como se te tivessem sempre conhecido.
Quando vieres
nenhum de nós dirá nada
mas a mãe largará o bordado
o pai largará o jornal
as crianças os brinquedos
e abriremos para ti os nossos corações.
Pois quando tu vieres
Não és só tu que vens
É todo um mundo novo que despontará lá fora.

«Maria Eugénia Cunhal» - In «Silêncio de Vidro»

quarta-feira, 13 de setembro de 2023

 A POETISA

13.9.1923 -13.9.2023


"Já que o coito, diz Morgado, tem como fim cristalino, preciso e imaculado fazer menino ou menina e cada vez que o varão sexual petisco manduca, temos na procriação prova de que houve truca-truca, sendo só pai de um rebento, lógica é a conclusão de que o viril instrumento só usou - parca ração! - uma vez. E se a função faz um órgão  - diz o ditado consumada essa excepção ficou capado o Morgado" 

Natália Correia 

sexta-feira, 21 de julho de 2023


 ROSA




És a mais perfeita forma de ser flor. 

Cinco são as pétalas que te vestem 

Incontáveis os acúleos que as protegem

Divinal a Arte que pincelou a tua cor. 


Teu íntimo, misterioso e sedutor

Exala tal fragrância perfumante 

Que o incauto em seu labor 

Entontece inebriante. 


É tua natureza ser bela 

Brilhante e sedutora, 

Porém simples e singela. 


Rosa é teu nome de flor

Cor que realça o feminino 

A forma do teu esplendor. 


Rendido a tão grande encanto

Mais não pude que escrever

Estes versos como em pranto. 


João Andarilho









quarta-feira, 18 de janeiro de 2023

 

GIL EANNES



FERNANDO PESSOA

MAR PORTUGUEZ

Ó MAR SALGADO, quanto do teu sal 

São lagrimas de Portugal !

Por te cruzarmos, quantas mães choraram, 

Quantos filhos em vão resaram !

Quantas noivas ficaram por casar 

Para que fosses nosso, ó mar 

Valeu a pena ? Tudo vale a pena 

Se a alma não é pequena. 

Quem quere passar além do Bojador

Tem que passar além da dor. 

Deus ao mar o perigo e o abysmo deu,

Mas nelle é que espelhou o céu.

domingo, 7 de agosto de 2022

quarta-feira, 18 de agosto de 2021

LORCA



ROMANCE SONÁMBULO

A Gloria Giner

y a Fernando de los Ríos

Verde que te quiero verde.

Verde viento. Verdes ramas.

El barco sobre la mar

y el caballo en la montaña.

Con la sombra en la cintura

ella sueña en su baranda,

verde carne, pelo verde,

con ojos de fría plata.

Verde que te quiero verde.

Bajo la luna gitana,

las cosas le están mirando

y ella no puede mirarlas.

*

Verde que te quiero verde.

Grandes estrellas de escarcha,

vienen con el pez de sombra

que abre el camino del alba.

La higuera frota su viento

con la lija de sus ramas,

y el monte, gato garduño,

eriza sus pitas agrias.

¿Pero quién vendrá? ¿Y por dónde...?

Ella sigue en su baranda,

verde carne, pelo verde,

soñando en la mar amarga.

*

Compadre, quiero cambiar

mi caballo por su casa,

mi montura por su espejo,

mi cuchillo por su manta.

Compadre, vengo sangrando,

desde los montes de Cabra.

Si yo pudiera, mocito,

ese trato se cerraba.

Pero yo ya no soy yo,

ni mi casa es ya mi casa.

Compadre, quiero morir

decentemente en mi cama.

De acero, si puede ser,

con las sábanas de holanda.

¿No ves la herida que tengo

desde el pecho a la garganta?

Trescientas rosas morenas

lleva tu pechera blanca.

Tu sangre rezuma y huele

alrededor de tu faja.

Pero yo ya no soy yo,

ni mi casa es ya mi casa.

Dejadme subir al menos

hasta las altas barandas,

dejadme subir, dejadme,

hasta las verdes barandas.

Barandales de la luna

por donde retumba el agua.

*

Ya suben los dos compadres

hacia las altas barandas.

Dejando un rastro de sangre.

Dejando un rastro de lágrimas.

Temblaban en los tejados

farolillos de hojalata.

Mil panderos de cristal,

herían la madrugada.

*

Verde que te quiero verde,

verde viento, verdes ramas.

Los dos compadres subieron.

El largo viento, dejaba

en la boca un raro gusto

de hiel, de menta y de albahaca.

¡Compadre! ¿Dónde está, dime?

¿Dónde está mi niña amarga?

¡Cuántas veces te esperó!

¡Cuántas veces te esperara,

cara fresca, negro pelo,

en esta verde baranda!

*

Sobre el rostro del aljibe

se mecía la gitana.

Verde carne, pelo verde,

con ojos de fría plata.

Un carámbano de luna

la sostiene sobre el agua.

La noche su puso íntima

como una pequeña plaza.

Guardias civiles borrachos,

en la puerta golpeaban.

Verde que te quiero verde.

Verde viento. Verdes ramas.

El barco sobre la mar.

Y el caballo en la montaña.


Federico Garcia Lorca







terça-feira, 26 de janeiro de 2021




EXÍLIO



Quando a pátria que temos não a temos

Perdida por silêncio e por renúncia

Até a voz do mar se torna exílio

E a luz que nos rodeia é como grades



Sophia de Mello Breyner Andresen

terça-feira, 1 de dezembro de 2020

AUTOPSIGRAFIA

 Fernando Pessoa morreu em 30 de Novembro de 1935



O poeta é um fingidor.

Finge tão completamente

Que chega a fingir que é dor

A dor que deveras sente.



E os que lêem o que escreve,

Na dor lida sentem bem,

Não as duas que ele teve,

Mas só a que eles não têm.



E assim nas calhas de roda

Gira, a entreter a razão,

Esse comboio de corda

Que se chama coração.



«Fernando Pessoa», in 'Cancioneiro'

Trecho do poema Autopsigrafia 

domingo, 26 de maio de 2019



A CULPA É VOSSA!


" Mãe... eu quero ficar sozinho! Mãe, eu não quero pensar mais, mãe, eu quero morrer, mãe! Eu quero desnascer, ir-me embora sem sequer ter que me ir embora! Mãe, por favor... tudo menos a casa em vez de mim, outro maldito que não sou senão este tempo que decorre entre fugir de me encontrar e me encontrar fugindo. De quê, mãe? Diz! São coisas que se me perguntem... não pode haver razão para tanto sofrimento. E se inventássemos o mar de volta e se inventássemos partir para regressar, partir e aí, nessa viagem, ressuscitar da morte às arrecuas que me deste. Partida para ganhar, partida de acordar, abrir os olhos numa ânsia colectiva de tudo fecundar, terra, mar, mãe. Lembrar como o mar nos ensinava a sonhar alto. Lembrar, note a note, o canto das sereias, lembrar o Depois do Adeus e o frágil e ingénuo cravo da Rua do Arsenal, lembrar cada lágrima, cada abraço, cada morte, cada traição, partir aqui com a ciência toda do passado, partir aqui, para ficar... Assim mesmo como intervim um dia a chorar de alegria, de esperança precoce e intranquila, o azul dos operários da Lisnave a desfilar gritando ódio apenas ao vazio, exército de amor e capacetes, assim mesmo na Praça de Londres, o soldado lhes falou: - olá camaradas, somos trabalhadores, eles não conseguiram fazer-nos esquecer, aqui está a minha arma para vos servir.  
Assim mesmo por trás das colinas onde o verde está à espera, se levantam antiquíssimos rumores, as festas e  os suores, os bombos de Lava Colhos. Assim mesmo senti um dia, a chorar de alegria e esperança precoce e intranquila o bater inexorável dos corações produtores, os tambores. De quem é o Carvalhal? É nosso! Assim, te quero cantar! Mar antigo a que regresso. Neste cais está arrimado o barco que sonho em que voltei, neste cais eu encontrei a margem do outro lado, Grândola Vila Morena. Diz lá? Valeu a pena a travessia? Valeu pois! Pela vaga de fundo se sumiu o futuro histórico da minha classe, no fundo deste mar encontrarei os tesouros recuperados de mim, que estou a chegar do lado de lá para ir convosco, tesouros infindáveis que vos trago de longe e que são vossos, o meu canto e a palavra, o meu sonho é a luz que vem do fim do mundo, dos vossos antepassados que ainda não nasceram. A minha arte é estar aqui convosco e ser-vos alimento e companhia na viagem  para estar aqui de vez. Sou português, pequeno-burguês de origem, filho de professores primários, artista de variedades, compositor popular, aprendiz de feiticeiro. Faltam-me dentes, sou o Zé Mário Branco, 37 anos, do Porto, muito mais vivo que morto. Contai com isto de mim para cantar e para o resto.

(Fevereiro de 1979)


José Mário Branco - FMI



















quarta-feira, 3 de abril de 2019



se não sai de ti a explodir
apesar de tudo,
não o faças.
a menos que saia sem perguntar do teu
coração, da tua cabeça, da tua boca
das tuas entranhas,
não o faças.
se tens que estar horas sentado
a olhar para um ecrã de computador
ou curvado sobre a tua
máquina de escrever
procurando as palavras,
não o faças.
se o fazes por dinheiro ou
fama,
não o faças.
se o fazes para teres
mulheres na tua cama,
não o faças.
se tens que te sentar e
reescrever uma e outra vez,
não o faças.
se dá trabalho só pensar em fazê-lo,
não o faças.
se tentas escrever como outros escreveram,
não o faças.
se tens que esperar para que saia de ti
a gritar,
então espera pacientemente.
se nunca sair de ti a gritar,
faz outra coisa.
se tens que o ler primeiro à tua mulher
ou namorada ou namorado
ou pais ou a quem quer que seja,
não estás preparado.
não sejas como muitos escritores,
não sejas como milhares de
pessoas que se consideram escritores,
não sejas chato nem aborrecido e
pedante, não te consumas com auto-devoção.
as bibliotecas de todo o mundo têm
bocejado até
adormecer
com os da tua espécie.
não sejas mais um.
não o faças.
a menos que saia da
tua alma como um míssil,
a menos que o estar parado
te leve à loucura ou
ao suicídio ou homicídio,
não o faças.
a menos que o sol dentro de ti
te queime as tripas,
não o faças.
quando chegar mesmo a altura,
e se foste escolhido,
vai acontecer
por si só e continuará a acontecer
até que tu morras ou morra em ti.
não há outra alternativa.
e nunca houve.
Charles Bukowsky

Poeta, contista e romancista norte americano
(Singela homenagem ao meu camarada e amigo  poeta/contador,  de Valmedo que hoje completa 55 primaveras)
João Andarilho

terça-feira, 1 de janeiro de 2019


Poema de Ano Novo
Esperança 

Lá bem no alto do décimo segundo andar do Ano
Vive uma louca chamada Esperança
E ela pensa que quando todas as sirenas
Todas as buzinas
Todos os reco-recos tocarem
Atira-se
E
— ó delicioso vôo!
Ela será encontrada miraculosamente incólume na calçada,
Outra vez criança…
E em torno dela indagará o povo:
— Como é teu nome, meninazinha de olhos verdes?
E ela lhes dirá
(É preciso dizer-lhes tudo de novo!)
Ela lhes dirá bem devagarinho, para que não esqueçam:
— O meu nome é ES-PE-RAN-ÇA…


Mário Quintana

João Soneto




  AZIAGO Hoje não está a correr bem o dia. Saio em direcção ao metro Oriente. O objetivo claro é ir à Gulbenkian. Saio em São Sebastião para...