segunda-feira, 27 de maio de 2024

terça-feira, 21 de maio de 2024

 

PEREGRINO DOS ARES


Falcão Peregrino (nome científico Falco Peregrinus) ou Falcão Andarilho, como é designado em grego e latim, é considerada a ave mais veloz do mundo. Ave de rapina, pode atingir os 320 km/h, habitando desfiladeiros ou, em meio urbano, edifícios altos. Morcegos, pequenas aves que derruba com as garras em voo picado, matando-as com o bico, peixes a insectos fazem parte da sua dieta alimentar. É uma ave magnífica.

Desde sempre tive fascínio pela magestosidade das aves, do formato dos seus corpos e da aerodinâmica do seu corpo. Tudo é perfeito e maravilhosamente deslumbrante. O homem procurou e tentou, imitando as aves, dominar o ar desafiando a força da gravidade. De desastre em desastre, alcançou um tal desenvolvimento tecnológico, que lhe permitiu, efectivamente, competir  com estes seres proporcionando momentos de inigualável prazer.

Balão, paraquedas ou parapente, entre outros, são meios que permitem desafiar os céus e nem todos os têm no sítio, arranjando a necessária dose de coragem para tomar tal decisão. Porém, não foi o meu caso. De facto, ambicionei sempre desafiar o vazio e deixar-me cair nos braços do Criador. Um belo dia do corrente mês de Maio, porque o dia estava perfeito, foi o dia V de Victória. Rumei, com outros camaradas navegadores, à procura do Adamastor dos ares. Tranquilidade foi o que me acompanhou durante a viagem  até pôr os pés dentro daquele pequeno monstro de ferro trepidante que me elevou junto Dele. Chegado o momento da verdade, senti alguma apreensão, que foi aumentando à medida que os precedentes foram caindo, um após outro e eu era empurrado para a goela do inimaginável. Junto à porta obrigaram-me a pôr de joelhos. Só faltava rezar! Mas não tive tempo: senti-me arrancado de mim, transposto para outra dimensão! de olhos esbugalhados e rosto despregado, tornei-me peregrino do ar. Entre mim e o resto nada restava se não eu. A 200 km/hora me aproximei do destino final, era fatal como o destino. A sensação era indescritível, o impacto da deslocação do ar brutal! nesta altura era desfrutar extasiado os poucos segundos que me separavam da abertura do paraquedas. Acabou por acontecer, como espectável e o mundo passou ao ralenti. Ouvi a voz do instrutor, regressei à realidade, a sensação era diferente, o mundo jazia a meus pés e era eu que me espantava com a beleza da paisagem e do encanto daquelas planícies salpicadas de verde e castanho. Controlei o voo para a esquerda e depois com um loop para a direita que me deixou sem fôlego e me revolveu o estômago. 

Aterrei e com os pés bem assentes na terra, abençoei todos os seres alados deste planeta, imaginando-me renascido com um par de asas incrustado no dorso. Um dia vou voar, um dia vou voar ...


João Andarilho

quinta-feira, 9 de maio de 2024

quinta-feira, 25 de abril de 2024

 1974 50 2024



Que a Liberdade está a passar por aqui...

João Andarilho 

 QUANDO VIERES




Quando vieres

Encontrarás tudo como quando partiste.
A mãe bordará a um canto da sala...
Apenas os cabelos mais brancos
E o olhar mais cansado.
O pai fumará o cigarro depois do jantar
E lerá o jornal.
Quando vieres
Só não encontrarás aquela menina de saias curtas
E cabelos entrançados
Que deixaste um dia.
Mas os meus filhos brincarão nos teus joelhos
Como se te tivessem sempre conhecido.
Quando vieres
nenhum de nós dirá nada
mas a mãe largará o bordado
o pai largará o jornal
as crianças os brinquedos
e abriremos para ti os nossos corações.
Pois quando tu vieres
Não és só tu que vens
É todo um mundo novo que despontará lá fora.

«Maria Eugénia Cunhal» - In «Silêncio de Vidro»

domingo, 21 de abril de 2024

 THE POSTMAN ALWAYS RINGS TWICE


Johanna e Johannis formaram um casal que viveu num casal no povoal de Taxoval algures no Portugal da década de 90 do séc XIX. Oriundos do norte da Europa, arribaram ao nosso país de forma dramática, quando, numa noite de tempestade, o veleiro que os transportava em direcção à Terra Nova, se aproximou perigosamente da costa naufragando ao norte da península de Peniche, junto à Nau dos corvos, no Cabo Carvoeiro. Foram dos poucos sobreviventes e acabaram por descobrir terra nova numa terra completamente desconhecida e estranha. Sem recursos que não a força de vontade e dois pares de braços, retomaram a sua vida não muito longe do local do naufrágio, em terras da Lourinhã, não sem que antes tenham permanecido alojados, temporariamente, na aldeia de Ferrel, com a ajuda do capelão. Porém, a estadia foi breve, até porque, naquelas paragens, tudo o que não seja da terra dos burros é olhado com desconfiança. Com esforço, em Taxoval de Baixo, construíram uma pequena habitação com os recursos que tinham à mão. Era pequena, mas suficientemente acolhedora para lhes dar o conforto que o desconforto dos elementos provocava. Os anos passaram e o casal assentou raízes, constituindo uma prol de descendentes que o tempo se encarregou de dispersar. Todavia, algum, certamente, tri-neto possivelmente, tem tentado reescrever a estória familiar e recuperar aquilo que foi património dos seus trisavós. 

Podia ser assim o enredo que imaginei para a absurda visão que se depara ao viajante que percorre uma estreita estrada secundária do Taxoval de Baixo. Mesmo em frente a umas majestosas ruinas daquilo que foi uma habitação e à entrada do terreno onde estão situadas, alguém plantou um moderno e bonito poste com caixa de correio e número de porta. É um postal surreal e dá liberdade à imaginação... 

Uma coisa deve ser certa: não está fácil ao tri-neto, a legalização daquilo que foi património dos seus ascendentes, imagino eu 🫣




João Andarilho 

sábado, 23 de março de 2024

 

SÁBADO NÃO


... por volta das 15:50, dei com o local. Era aqui que se iria realizar a tertúlia que tinha como tema, as fortificações marítimas de Peniche e Lourinhã. Estranho imóvel com aspecto antiquado e pouca manutenção. Porta entreaberta, entro. Na recepção só o letreiro. Adianto-me, titubiante e oiço vozes. Deve ser aqui, digo. Desço e à direita caio em cima do que parecia uma reunião de condóminos. Boa tarde, balbucio. Boa tarde, respondeu o parlante desconfiado e continuou: " ... portanto, acho que a associação devia achar bem vinda uma contribuição extra dos associados para fazer face..". Onde raio me fui meter, questionei-me e pensei, fosca-se e agora como é que vou sair daqui quando, entrando, pus todo o mundo a olhar para mim, como se fosse o ET. Dois minutos passaram e arranjei a melhor solução que tinha à mão, literalmente. Fingi a recepção de uma chamada, levantei o aparelho, fiz sinal com a mão e zarpei dali com a cauda entre as pernas. Assim foi a tertúlia que, tão grande expectativa tinha criado. Fico, porém, satisfeito pela pessoa que me deu conhecimento de tão promissora reunião ter ficado no sofá, curtindo a ressaca de uma noite sem dormir. Um bem haja ao meu amigo João do Casal da Gaita.

De novo no carro, conduzi até à magnifica praia de Peniche de Cima, mais conhecida por Gamboa e saboreei a espectacular baía  que se estendia a perder de vista. Tarde sem vento, nebulada pelos ventos provenientes do norte de África, abafada e subitamente alterada pelo som de uma banda que debitava boa música da América do Norte, na voz de Salomé Machado, acompanhada na guitarra por Thierry Cardoso e na bateria, especialmente convidado, João Sousa. Formam a banda de nome Two Shots. Som bonito, voz bonita e músicas míticas do panorama musical.



Acabou, assim, por ser um SÁBADO SIM...


Bom fim de semana a tutti!


João Andarilho

O UIVO DE MONTEJUNTO Porque resulta de interesse histórico e natural conhecimento, com a devida vénia se transcreve o texto infra . O Último...