A CAVERNA
Ler e o hábito da leitura é uma poderosa ferramenta que promove, através do conhecimento, que sejamos melhores seres humanos, bons homens e mulheres, conscientes, esclarecidos e solidários. Vem isto a propósito da transcrição de um diálogo supostamente ocorrido entre duas pessoas, na cidade de São Paulo; uma esclarecida e outra vivendo na sua caverna. Eis a descrição com a devida vénia:
"Bom dia não é só um cumprimento.
Às vezes é um choque de realidade.
Hoje, voltando do trabalho — madrugada inteira nas costas, corpo cansado, olhos pesados — eu estava sentado no metrô de São Paulo, rumo à minha querida Zona Leste, Itaquera. Sábado, 9h da manhã. O Brasil real acordando cedo. O Brasil que não tem motorista, não tem helicóptero, não tem sobrenome histórico. Só tem boleto, sono e dignidade.
Um senhor sentou ao meu lado.
Pegou o telefone.
E começou o ritual de sempre — aquele mantra repetido por quem nunca parou pra pensar:
“Esquerdista é vagabundo, ignorante, pobre…”
Eu ouvi calado.
Respirei.
Esperei ele desligar.
Aí falei:
— Bom dia, senhor. Por que tanto ódio?
E não dei tempo de resposta.
Porque algumas ideias precisam ser desmontadas antes de se defenderem.
Disse com calma, mas com precisão cirúrgica:
— O senhor deve ser muito rico, né? Andando de metrô sábado às 9 da manhã…
— Seu motorista deve estar de folga hoje?
— Seus filhos são donos de grandes empresas?
— Seus netos estão estudando fora do Brasil?
Ele começou a diminuir. Literalmente.
O corpo encolheu.
A voz sumiu.
A ideologia começou a tremer.
Até que ele respondeu, meio sem chão:
— Não tenho motorista… meu filho é mecânico… não tenho netos formados…
Aí veio o silêncio constrangedor.
Aquele silêncio que só aparece quando a consciência bate na porta e ninguém quer abrir.
E eu completei, olhando nos olhos:
— Então o senhor não tem vergonha de dizer que é de direita?
— Pelo amor de Deus, o senhor é um pobre de direita e nem sabe ainda.
— Mas ainda dá tempo. Dá tempo de aprender o que é consciência de classe.
— Dá tempo de ler, estudar, pensar… antes de defender governantes que nunca vão te defender.
Desejei bom dia.
Desci em Itaquera.
Ele não desceu.
Acho que não era a estação dele.
Ou talvez… não era mais o mesmo lugar mental de antes.
Porque quando a pessoa percebe que passou a vida defendendo quem nunca esteve do lado dela, a mente trava.
Buga.
Reinicia.
E é aí que mora o maior medo do sistema:
o dia em que o pobre começa a pensar.
Não é a esquerda que assusta.
Não é a política.
Não é o discurso.
É o despertar.
E depois que a consciência de classe acorda…
não há metrô que leve de volta à ignorância.
Ass : André Luiz Thiago também conhecido por André Negrão. "
João Andarilho
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