MT
" Coimbra, 3 de Abril de 1983 — Morte de minha irmã. E não há palavras para o desespero em que estou. Gostávamos um do outro como dois cúmplices do mesmo mistério sagrado, feito de raízes e vínculos. Tudo nela era, como em mim, ligação à terra, às tradições, às origens. Havia uma ancestralidade ingénita em todos os seus gestos, ditos e comportamentos. S. Martinho falava pela sua boca mais eloquentemente do que pela minha pena. Numa imagem, num rifão, consubstanciava toda a realidade física e metafísica que a rodeava. Depois de sacrificar a mocidade a cuidar dos pais até lhes fechar os olhos, ficou heroicamente o resto da vida à frente da casa a granjear as courelas, sempre à espera do herdeiro que eu lhe desse e fosse o continuador da sua fidelidade à matriz. É dia de Páscoa. O padre já hoje não lhe subirá as escadas, enfeitadas de loureiro, com a boa nova da aleluia. Oxalá que no outro mundo ela tenha a visão gloriosa da ressurreição em que acreditava. Eu por cá fico ainda neste desespero agnóstico, que a sua partida tornou mais cruciante. Fui condenado a ser coveiro de todos os que pelo sangue me precederam e davam caução à minha humanidade.
Diário XIV
Miguel Torga
A irmã de Miguel Torga, Maria Correia "
Publicação de Miguel Torga - A Criação do Mundo

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