quarta-feira, 25 de agosto de 2021

 


CHARLIE WATTS


Um Senhor, de bom trato, afável, calmo de voz e bem falante, elegante no vestir, no fundo um gentleman. Eis Charlie Watts, mais conhecido por ser o homem da bateria dos Rolling Stones. Que contraste a figura de gentleman ser o companheiro de Keith, Wood e Mick. 

Algures, na década de oitenta do século passado, num hotel de Amesterdão, Jagger, bem bebido e sem controlo, desbragado, agarrou no telefone do quarto e decidiu ligar para o quarto de Watts. Ao atender, este foi desagradavelmente surpreendido com a voz imperativa e sonora de Mick, ordenando-lhe, a ele, Charlie Watts nos termos seguintes:  "Quero que o meu baterista venha ao meu quarto de imediato!".

Watts, desligou o telefone, saiu da cama onde dormia, fez a barba, tomou um duche. Vestiu um terno a estrear e calçou os sapatos feitos por medida. Penteado e aprumado saiu do quarto e dirigiu-se ao quarto de Mick. Bateu e, no instante em que esta se abriu desferiu um potente soco no folgoso vocalista que recuou de cara ensanguentada caindo junto à janela ao fundo. "Nunca mais me chames de baterista do teu grupo porque não o sou, tu é que és o vocalista do meu grupo!"

Diz-se que, a partir daí, Mick não mais foi arrogante e malcriado com a figura que, inapelavelmente era o cimento dos Rolling Stones, um GENTLEMAN.

Partiu ontem, 24 de Agosto de 2021. Fica em paz Charlie Watts.



João Andarilho

sábado, 21 de agosto de 2021

 

CABUL


"... Em 1847 os inglezes, "por uma Razão d'Estado, uma necessidade de fronteiras scientificas, a segurança do imperio, uma barreira ao dominio russo da Asia..." e outras cousas vagas que os politicos da India rosnam sombriamnente, retorcendo os bigodes - invadem o Afgahanistam, e ali vão aniquilando tribus seculares, desmantellando villas, assolando searas e vinhas: apossam-se, por fim, da santa cidade de Cabul; sacodem do serralho um velho emir apavorado; collocam lá outro de raça mais submissa, que já trazem preparado nas bagagens, com escravas e tapetes; e logo que os correspondentes dos jornaes teem telegraphado a victoria, o exercito, à beira dos arroios e nos vergeis de Cabul, desaperta o Corrame, e fuma o cachimbo da paz... Foi assim em 1847! Ha-se ser assim em 1880...
...E quando por alli aparecer, enfim, o grosso do exercito inglês, à volta de Cabul, atravancado de artilharia, ecoando-se espessamente, por entre a garganta das serras, no leito seco das torrentes, com as suas longas caravanas de camelos, aquela massa barbara rola-lhe em cima e aniquila-o... Foi assim em 1847! Ha-se ser assim em 1880...
... E de tanto sangue, tanta agonia, tanto luto, que resta por fim? Uma cançao patriótica, uma estampa idiota nas salas de jantar, mais tarde uma linha de prosa n'uma pagina de crónica... Consoladora philosophia das guerras!..."


Cartas de Inglaterra, Eça de Queiroz

quarta-feira, 18 de agosto de 2021

LORCA



ROMANCE SONÁMBULO

A Gloria Giner

y a Fernando de los Ríos

Verde que te quiero verde.

Verde viento. Verdes ramas.

El barco sobre la mar

y el caballo en la montaña.

Con la sombra en la cintura

ella sueña en su baranda,

verde carne, pelo verde,

con ojos de fría plata.

Verde que te quiero verde.

Bajo la luna gitana,

las cosas le están mirando

y ella no puede mirarlas.

*

Verde que te quiero verde.

Grandes estrellas de escarcha,

vienen con el pez de sombra

que abre el camino del alba.

La higuera frota su viento

con la lija de sus ramas,

y el monte, gato garduño,

eriza sus pitas agrias.

¿Pero quién vendrá? ¿Y por dónde...?

Ella sigue en su baranda,

verde carne, pelo verde,

soñando en la mar amarga.

*

Compadre, quiero cambiar

mi caballo por su casa,

mi montura por su espejo,

mi cuchillo por su manta.

Compadre, vengo sangrando,

desde los montes de Cabra.

Si yo pudiera, mocito,

ese trato se cerraba.

Pero yo ya no soy yo,

ni mi casa es ya mi casa.

Compadre, quiero morir

decentemente en mi cama.

De acero, si puede ser,

con las sábanas de holanda.

¿No ves la herida que tengo

desde el pecho a la garganta?

Trescientas rosas morenas

lleva tu pechera blanca.

Tu sangre rezuma y huele

alrededor de tu faja.

Pero yo ya no soy yo,

ni mi casa es ya mi casa.

Dejadme subir al menos

hasta las altas barandas,

dejadme subir, dejadme,

hasta las verdes barandas.

Barandales de la luna

por donde retumba el agua.

*

Ya suben los dos compadres

hacia las altas barandas.

Dejando un rastro de sangre.

Dejando un rastro de lágrimas.

Temblaban en los tejados

farolillos de hojalata.

Mil panderos de cristal,

herían la madrugada.

*

Verde que te quiero verde,

verde viento, verdes ramas.

Los dos compadres subieron.

El largo viento, dejaba

en la boca un raro gusto

de hiel, de menta y de albahaca.

¡Compadre! ¿Dónde está, dime?

¿Dónde está mi niña amarga?

¡Cuántas veces te esperó!

¡Cuántas veces te esperara,

cara fresca, negro pelo,

en esta verde baranda!

*

Sobre el rostro del aljibe

se mecía la gitana.

Verde carne, pelo verde,

con ojos de fría plata.

Un carámbano de luna

la sostiene sobre el agua.

La noche su puso íntima

como una pequeña plaza.

Guardias civiles borrachos,

en la puerta golpeaban.

Verde que te quiero verde.

Verde viento. Verdes ramas.

El barco sobre la mar.

Y el caballo en la montaña.


Federico Garcia Lorca







segunda-feira, 16 de agosto de 2021


TORGA



" Miramar, 12 de Agosto de 1967 – Sessenta anos. Felizmente que ninguém deu pela conta, e pude calmamente, secretamente, meditar na significação deste dia crucial. Até há pouco, ia contando. Trinta, quarenta, cinquenta… Não era a juventude , evidentemente, mas havia ainda pano para mangas. Mais vinte , mais quinze…Tempo de sobra, enfim. Agora é que toda a ilusão se desvaneceu. Nem quarteirão, nem dúzia. Inexorável, a razão apenas me promete a decadência e o desenlace, no molho amargo de que tudo está feito e por fazer. É essa, de resto, a grande lição de humildade que a vida nos dá , se a esclerose não lavrou de mais e consente ao espírito o resgate duma lúcida contrição. Vamos seguindo confiados pela estrada fora. De repente, olhamos para trás , e que terramoto de ilusões! O que parecia grande mede um palmo, o que julgávamos sólido abana, o que dava a impressão de voar, patinha. Incrédulos, esfregamos os olhos. Mas não há dúvida. Desacertos sobre desacertos, erros palmares, ingenuidades confrangedoras. O saco de viagem abarrotado de falências. E de nada vale perguntar se as coisas se poderiam passar de outra maneira. Os factos são irreversíveis. No meu caso, então, só por milagre. Comecei mal e tarde. Enquanto outros partiram do saber, eu parti do sofrimento. Nenhuma porta se me abriu sem eu a arrombar. Lutei contra a pobreza, lutei contra a ignorância , lutei contra a idade, lutei contra os homens, lutei contra Deus, lutei contra mim. Uma infância rolada, de bola à mercê dos pontapés do mundo, uma juventude esfalfada, de estafeta atrasado na maratona da cultura , uma maturidade crispada, de indesejável na pátria. A criança desaninhada e perplexa nas encruzilhadas do destino, o rapaz a tentar a ferro e fogo fazer-se gente , o homem cercado de incompreensões. De maneira que era praticamente impossível que a árvore desse outros frutos. Tudo se conjugou nela e fora dela para um Outono sáfaro, que verifico nesta singeleza despida de ilusões. E triste , mas não há voltas a dar-lhe. Resta-me apenas uma consolação: embora derrotado, consegui chegar ao fim da aventura na pureza com que a iniciei, e remir pela consciência dum velho poeta a sangrar a inocência dum jovem poeta de versos de pé quebrado.



Diário X





terça-feira, 27 de julho de 2021

 OSCAR II


Na morte de Otelo, Costa não decretou luto nacional e Marcelo concordou. Sinto vergonha. O meu silêncio passaria despercebido, mas a consciência havia de pesar-me nos dias que ainda tiver.
O último militar a ter direito a luto nacional foi Spínola, mas esse não comandou o 25 de Abril, foi o chefe do MDLP.
Os heróis de Abril são demasiado grandes para precisarem da bandeira a meia haste, foram eles que içaram a bandeira da liberdade, e Otelo foi o comandante militar desses heróis. Obrigado, Otelo. Nunca tantos choraram tanto um só homem.

In blogue de Carlos Esperança 



segunda-feira, 26 de julho de 2021

OSCAR  (1936-2021) 


Depoimento de Sergio Bruno A. Carvalho sobre o seu pai Otelo Saraiva de Carvalho


Já todos sabem: morreu às 4:11 de hoje o meu querido Pai. Morreu o Óscar do 25 de Abril, morreu o Otelo Saraiva de Carvalho.

Um Grande Homem, um Herói e... uma das vítimas da Revolução.

Todos o conhecemos de uma forma ou de outra.

Eu andava há uns 15 anos a ver se o convencia a avançar com um projeto sobre o pós 25 de Abril, algo tão bem feito quanto foi a sua obra "Alvorada em Abril". Durante 15 anos essa foi a prenda de anos e de Natal que lhe pedi. Porque, daquela forma arrebatada e pormenorizada que conhecem, ele me contava e aos netos histórias que eu nunca ouvi de ninguém: Como a 25 de Novembro recolheu a casa e evitou uma guerra civil; como teve então tropas à disposição para ir para a rua e mandou-os para casa, como sequentemente nunca quis cargos nem honrarias que lhe foram atribuídos pelo Costa Gomes, Mário Soares, etc.

Esta 5ª feira falávamos sobre o processo das FP-25 e ele dizia-me "os meus Camaradas nunca acreditariam que eu alguma vez estivesse envolvido nisso! Então eu que dei instruções claras no Plano do 25 de Abril para que nunca nos virássemos contra outras unidades militares, que não fosse disparado um tiro! Eu que no 25 de Novembro evitei a guerra civil!".

Perguntei-lhe: "Lembras-te de que eu próprio tive de te perguntar, olhos nos olhos, de Pai para filho, se tinhas tido algum envolvimento? Com tudo o que se dizia nos jornais e TVs, a dúvida instalou-se em mim, teu filho... E que até me respondeste algo zangado que NUNCA, até parecia que não o conhecia!",

E depois perguntei "E alguma vez perguntaste diretamente aos teus Camaradas de armas, os outros capitães e majores do 25A? Perguntei-lhe ainda, e ao Eanes, perguntaste? Ele respondeu-me, "Eles sabem! Eles conhecem-me; o Eanes foi minha testemunha abonatória no processo..." - Mas respondi-lhe que "uma coisa é ser testemunha abonatória, outra é ter a certeza". E isso só temos olhando nos olhos de quem gostamos, com quem privámos e perguntando. Nos tribunais exerce-se o Direito, não a Justiça.

A coragem, abnegação e serviço à Pátria do meu Pai merecia muito mais de Portugal, muito mais reconhecimento.

O nome e a figura dele foram usados e abusados, e ele não se defendeu, porque acreditava sempre na generosidade dos próximos. Cobardes usaram-no, até para ganharem amnistia, e nunca vieram publicamente estabelecer a verdade. A amargura só o atingiu nos últimos anos... A revolução devora os seus filhos.

Fico profundamente triste por não se ter feito o livro "O Verão Quente do Óscar". Seria um testemunho único, essencial e necessário para a história recente do nosso País, agora que se aproximam os 50 anos da comemoração do 25 de Abril. A equipa estava pronta, faltou arrancar...

E sei que uma das principais causas de morte do meu querido Pai foi a tristeza e amargura; pelas narrativas inverdadeiras que se criaram sobre ele, e pelo falecimento da sua mulher Dina

no passado Dezembro, companheira de vida que com ele fez as 3 comissões em África, e que o amou total e devotamente mais de 50 anos. Foi a maior ferida, a fatal.

Para mim, será sempre o meu muito Querido e inesquecível Pai. Disse-lhe isso ontem ao ouvido.

Precisava de o ter tido mais comigo na minha juventude, Portugal tirou-mo.

Lembrem-se do verdadeiro Otelo, não daquele que os media criaram. Ele merece, vocês sabem que sim!

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PS: O jovem oficial Otelo, reconhecido e amado por todos os seus soldados, nunca usou balas nas suas armas durante as três comissões em África.




O major comandante revolucionário Óscar exigiu que não houvesse tiros no 25 de Abril, revolução exemplar para todo o Mundo.




O general Otelo que tinha a maioria do poder militar em Portugal retirou-se e foi para casa em 25 de Novembro, e evitou uma guerra civil.




Nas suas palavras: “A minha responsabilidade nos atentados terroristas das FP25 é zero!”




“Nunca mandei matar ninguém. Tenho horror a qualquer assassínio. Liquidar um ente humano é para mim extremamente doloroso, não concebo que alguém o consiga fazer. E no entanto tenho este rótulo que me é dado, sobretudo pela gente de direita"


Ao contrário do que se diz, O julgamento das FP-25 terminou no dia 7 de abril de 2001, no Tribunal da Boa Hora, em Lisboa. Otelo foi absolvido no processo pelo colectivo de juízes da 3ª Vara Criminal da Boa Hora.




Talvez um dia os cobardes que se aproveitaram dele e da sua imagem para serem amnistiados sejam “homenzinhos” e digam a verdade. Que tirem o capuz.

sábado, 10 de julho de 2021

 LA VIE




< Parfois je suis submergé par l'amour de la vie. Quelle beauté, quelle harmonie, quelle unité profonde, quelle complémentarité et solidarité entre les vivants! Quelle force créatice pour enventer des myriades d'espèces animales et végétales singulières !

Parfois je suis submergé par la cruauté de la vie, la nécessiter de tuer pour vivre, son énergie destructrice, ses conflits, avec toujours le triomphe de la mort. Puis je réussi à réunir, maintenir, indisolublemente deux vérités contraires. La vie est cadeau et fardeau, la vie est merveilleuse et terrible. >

Edgar Morin  - Leçons D'un Siècle de Vie








O UIVO DE MONTEJUNTO Porque resulta de interesse histórico e natural conhecimento, com a devida vénia se transcreve o texto infra . O Último...