quinta-feira, 13 de agosto de 2026


MIGUEL TORGA, 12 de Agosto de 1907 - 17 de Janeiro de 1995





«ROMANCE


Ora pois: foi tal qual como vos digo:

Minha Mãe, certo dia, pôs a questão assim:

- ou Ela, ou eu!

E ficou resolvido que no dia doze

minha Mãe parisse,

e pariu!


Pariu e ninguém se opôs! Ninguém!

Como se fosse um feito glorioso

parir assim alguém, tão nu, tão desgraçado!

Por mim,

ainda disse que não!

Mas o seu Anjo da Guarda

era forte e tenebroso...

E aquele frágil cordão

Deixou de ser o meu Pão,

o meu Vinho

e a paz eterna do meu coração

mesquinho!...


Deixou de ser o silêncio

delicado e agradecido

dos meus instintos menores...

Deixou de ser o Norte daquele lago

onde boiava o meu corpo

sem alegria e sem dores...


Deixou de ser aquela verdadeira

e sagrada ignorância do meu nome,

que Satanás me disse, quando disse:

- Respira e come,

respira e come,

Animal!

(A voz de Satanás já nesse tempo

era humana e natural...)


Deixou de ser o mundo e foi um outro!

Foi a inocência perdida

E a minha voz acordada...

Foi a fome, a peste e a guerra!

Foi a terra

sem mais nada!


Depois,

sem dó nem piedade a vida começou....

Minha Mãe, a tremer, analisou-me o sexo,

e, ao ver que eu era homem,

corou... »




O Outro Livro de Job. (Poemas)

Miguel Torga

                                *

Fotobiografia de Miguel Torga, por Clara Rocha: Imagem de Miguel Torga.

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