terça-feira, 14 de setembro de 2021




SÓCRATES o Φιλοσοφος (Filósofo)



CONHECE-TE A TI MESMO (γνῶθι σεαυτόν) , uma máxima do auto-conhecimento que não é de sua autoria mas que terá lido numa inscrição no pórtico do Templo de Apolo, em Atenas, durante a sua juventude, ter-lhe-á tocado profundamente, fazendo-o entender que qualquer conhecimento posterior do mundo requeriria, antes, um conhecimento de si mesmo. A humildade de reconhecer da sua ignorância foi definidora do seu caráter questionador de sábio, levando-o à busca pelo saber. Ao invés, cria, a soberba intelectual levava à estagnação.

Vagueava pelas ruas de Atenas, conversando com as pessoas, questionando-as e ensinando-as, por meio da prática, o seu método (método socrático). 
Dizia-se "um parteiro de ideias". Não dele mesmo, mas, sim, das outras pessoas, que ao com ele conversarem, passavam pelo seu método. Sua missão era, sobretudo, a missão do diálogo, que levava as pessoas à “evidência da própria ignorância: situação que, não sendo ultrapassada, prenderia a alma num estéril engano”.

Obra de Jorge Pé-Curto 2020

O método socrático de trazer as ideias das pessoas consistia em dois passos:
Maiêutica – uma ferramenta retórica/argumentativa que consistia em sucessivas perguntas sobre a essência de algo, sobre o que é algo.
Ironia – a resposta, em tom irônico, dada ao interlocutor servia para desconsertá-lo e mostrá-lo que o conhecimento que ele julgava ter estava, na verdade, incorreto.

O método socrático conferiu ao filósofo o êxito de sua missão: levar a sua sabedoria ao povo ateniense. Ele foi um dos primeiros a tornar a questão pela essência das coisas assunto filosófico e, lutando contra o relativismo sofístico, falou da necessidade de se defrontar, não com as opiniões, mas com a verdade.

Num tempo de ilusões e de falsos profetas, sentemo-nos e conheçamo-nos. Busquemos a verdade .

João Andarilho

segunda-feira, 13 de setembro de 2021

 

NAQUELA ALDEIA


Tão pequena, tão pequena que todas as pedras tinham nome e seus inhabitantes sonambularam de apanharem estrelas. Era de noite e um ponto no mapa. No centro naquela aldeia uma estrela despontou e brilhou tanto que a todos cegou. No Coreto e do Coreto saíam anjos com harpas e sons celestes e luzes e cores, Deus meu que explendor. No Coreto Naquela Aldeia luzes e cores! 


Créditos do autor - Noiserv no Paço
Noiserv no Paço 9-2021
(créditos do autor)

João Andarilho






sábado, 11 de setembro de 2021

11-9-1973

ÚLTIMO POEMA DE VICTOR JARA (completo)




Somos cinco mil

nesta pequena parte da cidade.

Somos cinco mil.

Quantos seremos no total,

nas cidades e em todo o país?

Somente aqui, dez mil mãos que semeiam

e fazem andar as fábricas.



Quanta humanidade

com fome, frio, pânico, dor,

pressão moral, terror e loucura!



Seis de nós se perderam

no espaço das estrelas.



Um morto, um espancado como jamais imaginei

que se pudesse espancar um ser humano.



O outros quatro quiseram livrar-se de todos os temores

um saltando no vazio,

outro batendo a cabeça contra o muro,

mas todos com o olhar fixo da morte.



Que espanto causa o rosto do fascismo!



Colocam em prática seus planos com precisão arteira,

sem que nada lhes importe.



O sangue, para eles, são medalhas.



A matança é acto de heroísmo.



É este o mundo que criaste, meu Deus?

Para isto os teus sete dias de assombro e trabalho?



Nestas quatro muralhas só existe um número

que não cresce,

que lentamente quererá mais morte.



Mas prontamente me golpeia a consciência

e vejo esta maré sem pulsar,

mas com o pulsar das máquinas

e os militares mostrando seu rosto de parteira,

cheio de doçura.



E o México, Cuba e o mundo?




Que gritem esta ignomínia!

Somos dez mil mãos a menos

que não produzem.



Quantos somos em toda a pátria?



O sangue do companheiro Presidente

golpeia mais forte que bombas e metralhas.



Assim golpeará nosso punho novamente.


Como me sai mal o canto

quando tenho que cantar o espanto!



Espanto como o que vivo

como o que morro, espanto.



De ver-me entre tantos e tantos

momentos do infinito

em que o silêncio e o grito

são as metas deste canto.



O que vejo nunca vi,

o que tenho sentido e o que sinto

fará brotar o momento...”



(Victor Jara, Estádio do Chile, Setembro 1973).

quarta-feira, 25 de agosto de 2021

 


CHARLIE WATTS


Um Senhor, de bom trato, afável, calmo de voz e bem falante, elegante no vestir, no fundo um gentleman. Eis Charlie Watts, mais conhecido por ser o homem da bateria dos Rolling Stones. Que contraste a figura de gentleman ser o companheiro de Keith, Wood e Mick. 

Algures, na década de oitenta do século passado, num hotel de Amesterdão, Jagger, bem bebido e sem controlo, desbragado, agarrou no telefone do quarto e decidiu ligar para o quarto de Watts. Ao atender, este foi desagradavelmente surpreendido com a voz imperativa e sonora de Mick, ordenando-lhe, a ele, Charlie Watts nos termos seguintes:  "Quero que o meu baterista venha ao meu quarto de imediato!".

Watts, desligou o telefone, saiu da cama onde dormia, fez a barba, tomou um duche. Vestiu um terno a estrear e calçou os sapatos feitos por medida. Penteado e aprumado saiu do quarto e dirigiu-se ao quarto de Mick. Bateu e, no instante em que esta se abriu desferiu um potente soco no folgoso vocalista que recuou de cara ensanguentada caindo junto à janela ao fundo. "Nunca mais me chames de baterista do teu grupo porque não o sou, tu é que és o vocalista do meu grupo!"

Diz-se que, a partir daí, Mick não mais foi arrogante e malcriado com a figura que, inapelavelmente era o cimento dos Rolling Stones, um GENTLEMAN.

Partiu ontem, 24 de Agosto de 2021. Fica em paz Charlie Watts.



João Andarilho

sábado, 21 de agosto de 2021

 

CABUL


"... Em 1847 os inglezes, "por uma Razão d'Estado, uma necessidade de fronteiras scientificas, a segurança do imperio, uma barreira ao dominio russo da Asia..." e outras cousas vagas que os politicos da India rosnam sombriamnente, retorcendo os bigodes - invadem o Afgahanistam, e ali vão aniquilando tribus seculares, desmantellando villas, assolando searas e vinhas: apossam-se, por fim, da santa cidade de Cabul; sacodem do serralho um velho emir apavorado; collocam lá outro de raça mais submissa, que já trazem preparado nas bagagens, com escravas e tapetes; e logo que os correspondentes dos jornaes teem telegraphado a victoria, o exercito, à beira dos arroios e nos vergeis de Cabul, desaperta o Corrame, e fuma o cachimbo da paz... Foi assim em 1847! Ha-se ser assim em 1880...
...E quando por alli aparecer, enfim, o grosso do exercito inglês, à volta de Cabul, atravancado de artilharia, ecoando-se espessamente, por entre a garganta das serras, no leito seco das torrentes, com as suas longas caravanas de camelos, aquela massa barbara rola-lhe em cima e aniquila-o... Foi assim em 1847! Ha-se ser assim em 1880...
... E de tanto sangue, tanta agonia, tanto luto, que resta por fim? Uma cançao patriótica, uma estampa idiota nas salas de jantar, mais tarde uma linha de prosa n'uma pagina de crónica... Consoladora philosophia das guerras!..."


Cartas de Inglaterra, Eça de Queiroz

quarta-feira, 18 de agosto de 2021

LORCA



ROMANCE SONÁMBULO

A Gloria Giner

y a Fernando de los Ríos

Verde que te quiero verde.

Verde viento. Verdes ramas.

El barco sobre la mar

y el caballo en la montaña.

Con la sombra en la cintura

ella sueña en su baranda,

verde carne, pelo verde,

con ojos de fría plata.

Verde que te quiero verde.

Bajo la luna gitana,

las cosas le están mirando

y ella no puede mirarlas.

*

Verde que te quiero verde.

Grandes estrellas de escarcha,

vienen con el pez de sombra

que abre el camino del alba.

La higuera frota su viento

con la lija de sus ramas,

y el monte, gato garduño,

eriza sus pitas agrias.

¿Pero quién vendrá? ¿Y por dónde...?

Ella sigue en su baranda,

verde carne, pelo verde,

soñando en la mar amarga.

*

Compadre, quiero cambiar

mi caballo por su casa,

mi montura por su espejo,

mi cuchillo por su manta.

Compadre, vengo sangrando,

desde los montes de Cabra.

Si yo pudiera, mocito,

ese trato se cerraba.

Pero yo ya no soy yo,

ni mi casa es ya mi casa.

Compadre, quiero morir

decentemente en mi cama.

De acero, si puede ser,

con las sábanas de holanda.

¿No ves la herida que tengo

desde el pecho a la garganta?

Trescientas rosas morenas

lleva tu pechera blanca.

Tu sangre rezuma y huele

alrededor de tu faja.

Pero yo ya no soy yo,

ni mi casa es ya mi casa.

Dejadme subir al menos

hasta las altas barandas,

dejadme subir, dejadme,

hasta las verdes barandas.

Barandales de la luna

por donde retumba el agua.

*

Ya suben los dos compadres

hacia las altas barandas.

Dejando un rastro de sangre.

Dejando un rastro de lágrimas.

Temblaban en los tejados

farolillos de hojalata.

Mil panderos de cristal,

herían la madrugada.

*

Verde que te quiero verde,

verde viento, verdes ramas.

Los dos compadres subieron.

El largo viento, dejaba

en la boca un raro gusto

de hiel, de menta y de albahaca.

¡Compadre! ¿Dónde está, dime?

¿Dónde está mi niña amarga?

¡Cuántas veces te esperó!

¡Cuántas veces te esperara,

cara fresca, negro pelo,

en esta verde baranda!

*

Sobre el rostro del aljibe

se mecía la gitana.

Verde carne, pelo verde,

con ojos de fría plata.

Un carámbano de luna

la sostiene sobre el agua.

La noche su puso íntima

como una pequeña plaza.

Guardias civiles borrachos,

en la puerta golpeaban.

Verde que te quiero verde.

Verde viento. Verdes ramas.

El barco sobre la mar.

Y el caballo en la montaña.


Federico Garcia Lorca







segunda-feira, 16 de agosto de 2021


TORGA



" Miramar, 12 de Agosto de 1967 – Sessenta anos. Felizmente que ninguém deu pela conta, e pude calmamente, secretamente, meditar na significação deste dia crucial. Até há pouco, ia contando. Trinta, quarenta, cinquenta… Não era a juventude , evidentemente, mas havia ainda pano para mangas. Mais vinte , mais quinze…Tempo de sobra, enfim. Agora é que toda a ilusão se desvaneceu. Nem quarteirão, nem dúzia. Inexorável, a razão apenas me promete a decadência e o desenlace, no molho amargo de que tudo está feito e por fazer. É essa, de resto, a grande lição de humildade que a vida nos dá , se a esclerose não lavrou de mais e consente ao espírito o resgate duma lúcida contrição. Vamos seguindo confiados pela estrada fora. De repente, olhamos para trás , e que terramoto de ilusões! O que parecia grande mede um palmo, o que julgávamos sólido abana, o que dava a impressão de voar, patinha. Incrédulos, esfregamos os olhos. Mas não há dúvida. Desacertos sobre desacertos, erros palmares, ingenuidades confrangedoras. O saco de viagem abarrotado de falências. E de nada vale perguntar se as coisas se poderiam passar de outra maneira. Os factos são irreversíveis. No meu caso, então, só por milagre. Comecei mal e tarde. Enquanto outros partiram do saber, eu parti do sofrimento. Nenhuma porta se me abriu sem eu a arrombar. Lutei contra a pobreza, lutei contra a ignorância , lutei contra a idade, lutei contra os homens, lutei contra Deus, lutei contra mim. Uma infância rolada, de bola à mercê dos pontapés do mundo, uma juventude esfalfada, de estafeta atrasado na maratona da cultura , uma maturidade crispada, de indesejável na pátria. A criança desaninhada e perplexa nas encruzilhadas do destino, o rapaz a tentar a ferro e fogo fazer-se gente , o homem cercado de incompreensões. De maneira que era praticamente impossível que a árvore desse outros frutos. Tudo se conjugou nela e fora dela para um Outono sáfaro, que verifico nesta singeleza despida de ilusões. E triste , mas não há voltas a dar-lhe. Resta-me apenas uma consolação: embora derrotado, consegui chegar ao fim da aventura na pureza com que a iniciei, e remir pela consciência dum velho poeta a sangrar a inocência dum jovem poeta de versos de pé quebrado.



Diário X





O UIVO DE MONTEJUNTO Porque resulta de interesse histórico e natural conhecimento, com a devida vénia se transcreve o texto infra . O Último...