sábado, 2 de março de 2019




NÁUSEA

“O potencial matrimonial reside, precisamente, no amparo e na necessidade de segurança. A mulher gosta de se sentir útil, de ser a retaguarda e de criar a estabilidade familiar, para que o marido possa ser profissionalmente bem sucedido. Esse sucesso é também o seu sucesso! Por norma, não se incomoda em ter menos rendimentos que o marido, até pelo contrário. Gosta, sim, que seja este a obtê-los, sendo para si um motivo de orgulho. Porquê? Porque lhe confere a sensação de protecção e de segurança. Demonstra-lhe que, apesar de poder ter uma carreira mais condicionada, pelo facto de assumir o papel de esposa e mãe, a mulher conta com esse suporte e apoio do marido, para que nada falte. Por outro lado, aprecia a ideia de “ter casado bem”, como se fosse este também um ponto de honra. Naturalmente que o contrário não pode ser visto como menos meritório, em particular quando as oportunidades não são equivalentes. Assim, o casal, enquanto um só e actuando em uníssono, pode optar pela inversão destes papéis, que em nada diminuiu qualquer dos elementos, desde que movidos por objectivos comuns e focados no Amor.”


 Dra. Joana Bento Rodrigues, médica ortopedista (artigo publicado no Observador)

Pensamento digno de uma época retrógrada e salazarenta, escrito em 2019, em pleno século XXI

João Apneia



sexta-feira, 1 de março de 2019



MURO DO FINGIMENTO



O meu muro do fingimento é usado quando tem que ser usado. Pode ser aplicado em múltiplas situações práticas do dia a dia. Confesso que muitas vezes e pela minha maneira de ser, é usado de formas diversas, ora porque o silêncio é confrangedor e é recomendável lançar um lugar comum ou o contrário, o ambiente é propício e o silêncio o melhor conselheiro. Também há ocasiões em que a pachorra é limitada e deixo de ser mesmo hipócrita para escândalo ou pouco à vontade dos presentes e aqui deixo de ser fingido.

Vem isto a propósito da época de carnaval que se avizinha em que tal muro é derrubado e  deixa de ser fingido, ninguém leva a mal e é propício à prática de actos pouco consentâneos com a moral e a prática da lei e da ordem (mas aqui sem exageros se não está o caldo entornado).
A minha experiência nesta mundanice é recente como já tive oportunidade de referir anteriormente e a ocasião faz o ladrão. A páginas tantas a folia entra-nos nos poros e no sangue, o alcoól é um exagero e acabamos por nos envolver com emoção e sem razão.

De sorte que a folia é de pouca dura, cai-se na real em pouco tempo, o tempo suficiente para a reconstrução do muro.  

Bons carnavais então...


João Folião


quarta-feira, 27 de fevereiro de 2019





                                      "Cerra os olhos, espeta as orelhas e, do mais suave som
                                      ao mais selvático barulho, do mais simples tom à mais
                                      elevada harmonia, do grito mais violento e apaixonado
                                      às mais gentis palavras da doce razão, é a Natureza que
                                      fala, revelando o seu ser, o seu poder, a sua vida e a sua 
                                      afinidade, para que uma pessoa cega, a quem é negado 
                                      o mundo infinitamente visível, possa captar a infinita
                                      vitalidade daquilo que pode ser ouvido."

Johann Wolfgang  Von Goethe

terça-feira, 26 de fevereiro de 2019



TEM DIAS 


Há dias assim. Ontem acordei com uma imensa vontade de não sair de casa e achei insuportável a obrigação de me arrastar até ao local onde vou produzir aquilo que me é dado produzir e do qual só me é retribuído, em termos salariais, uma metade do que produzi. O que me foi "gamado" fica para o Estado e uma parte vai parar aos bolsos de um bando de criminosos supostamente ao serviço do povo.

Aquilo que faço e do qual me deveria orgulhar por ser um serviço que presto aos meus concidadãos, por força de um tremendo sentimento de injustiça, de desrespeito e falta de reconhecimento por parte do Estado, torna-se um processo rotineiro, sem perspectivas de valorização humana e pessoal, esgotante psicologicamente e atreito a eventuais disfunções e sentimentos contraditórios.

Quando aquilo que fazemos ao longo de uma vida de trabalho merece como reconhecimento o desprezo e a humilhação por parte do patrão Estado, está tudo dito.

Não entendo, porém, como cerca de 50% dos potenciais concidadãos eleitores entende, que o melhor que se tem como resposta é a abstenção ao direito de escolherem uma alternativa válida ao estado em que esta "porra" chegou. Daí sempre ter votado e sempre votarei de acordo com a minha consciência. Aliás muitos se sacrificaram até com a própria vida, para que um dia os portugueses tivessem voto livre e vivessem num país com liberdade de expressão e num Estado de Direito.

Por isso, pensando que a actual perspectiva não é famosa, entendo que o caminho é o de porfiar para que as coisas se alterem em favor de quem trabalha e produz e não daqueles que vivem dos rendimentos do trabalho. O que se vê hoje em dia é que a boa vida está do lado de gente sem escrúpulos. 

Ainda acredito que a Justiça se realize e que quem tenha que pagar pelos seus actos seja condenado e acabe na prisão que é o lugar certo para tanto criminoso que delapida, à grande e à francesa o que é de todos.

Desabafei. Melhorei

João Andarilho

domingo, 24 de fevereiro de 2019



DINOSSAURIUS


Hoje foi dia de trail, Troféu dos Dinossauros, na Lourinhã, mais concretamente com partida da Praia da Areia Branca. 


Resolvi chegar ao local de bike devidamente apetrechado. Não para correr ou caminhar mas para tirar alguns retratos da família de corredores a que pertenço. 
De Canon ao pescoço lá me pus ao caminho num dia solarengo e prazenteiro tendo-me juntado a alguns dos meus amigos e companheiros da equipa "Tálento para Correr Team", de que orgulhosamente faço parte. 


Umas centenas de participantes formavam uma multidão heterogénea e colorida quanto mais não seja para usufruirem do belíssimo dia e das magníficas paisagens desta região limítrofe do distrito de Lisboa. 

Antes da partida sorveu-se uma "bica" para dar ânimo já que a adrenalina estava instalada e o nervoso miudinho colava um friozinho na barriga.
De saída o pelotão lá se foi esticando pelo percurso delineado com algumas dificuldades técnicas, quanto mais não seja para ultrapassar uns canaviais com alguma água e lama à mistura. 

Ainda os acompanhei durante algum tempo, mas depois decidi fazer companhia ao meu amigo JC, poeta de Valmedo, que acabou por abandonar o pelotão devido a lesão já antiga no tornozelo, cuja cicatrização tarda. 



O trajecto rumo a casa estava decidido e foi bom. Porque JC é um poeta e da vida diz muitos poemas versando de tudo um pouco, desde estrofes de boa música e guitarradas imaginadas até à original pastorícia de galos e galinhas (quem diria!) e por fim a alegria estampadas na cauda e nos latidos do seu bom companheiro de quatro patas, James para os amigos. 


Foi uma manhã em cheio e a tarde prometia algum sossego no aconchego do sofá a pensar no que agora acabo de escrever.

Bom fim de semana.

João Gamito


DESFOLHADA


" Acto de extrair a espiga de milho. "

Não, não estou a falar de agricultura mas da canção que representou o nosso país no Festival da Canção de 1969, Desfolhada, com letra de José Carlos Ary do Santos, o compositor Nuno Nazareth Fernandes e cantora, Simone de Oliveira.

Num país amorfo e retrógrado, vergado pela censura era chegado o momento de fazer algo de diferente em termos musicais. Intempestivamente aparece Ary dos Santos à frente de Simone propondo-lhe que desse voz a este poema desfolhada. Não foi fácil encontrar a voz. Simone aceitou e com isso aceitando também o risco de interpretar uma letra que fugia aos parâmetros da tradição, do balofo e do bafio salazarentos.

Não era uma letra fácil de interpretar e a própria chegou a confessar o nervosismo e até a dificuldade em decorar a letra no momento que antecedeu a sua actuação.

Alvo de censura por parte da CS e de insultos por parte de gente ligada ao regime, chegou a ter que ser protegida pela GNR por ter tido a coragem de cantar "... quem faz um filho fá-lo por gosto."

Em maré de Festival vale a pena recordar, apesar do género não ser apreciador.

João Andarilho




ARY

Desfolhada

Corpo de linho
lábios de mosto
meu corpo lindo
meu fogo posto.
Eira de milho
luar de Agosto
quem faz um filho
fá-lo por gosto.
É milho-rei
milho vermelho
cravo de carne
bago de amor
filho de um rei
que sendo velho
volta a nascer
quando há calor.
Minha palavra dita à luz do sol nascente
meu madrigal de madrugada
amor amor amor amor amor presente
em cada espiga desfolhada.
Minha raiz de pinho verde
meu céu azul tocando a serra
oh minha mágoa e minha sede
oh mar ao sul da minha terra.
É trigo loiro
é além tejo
o meu país
neste momento
o sol o queima
o vento o beija
seara louca em movimento.
Minha palavra dita à luz do sol nascente
meu madrigal de madrugada
amor amor

João Andarilho

O UIVO DE MONTEJUNTO Porque resulta de interesse histórico e natural conhecimento, com a devida vénia se transcreve o texto infra . O Último...