sexta-feira, 18 de dezembro de 2020

quarta-feira, 16 de dezembro de 2020

segunda-feira, 7 de dezembro de 2020

OS PIDES



OS PIDES


Não pude resistir a transcrever o relato divertidíssimo de uma tertúlia entre bons amigos e camaradas, entre os quais, Ary dos Santos, ocorrida numa noite ainda sob a pata do tenebroso regime do Salazar:

" Referia-se a si mesmo como a Tia.

Num país cinzento, triste e conservador, cruzou os céus como um brilhante cometa. Trouxe para o povo das ruas a poesia fechada em livros e salões.

Passava os dias a trabalhar, mas as suas noites eram de estroina. Copos e celebrações continuas. Homossexual, provocador, grande e briguento, às vezes a sua presença transformava em batalha campal uma noite que estava a ser de tédio. 

Por volta de 1970 na zona da Estefânia, num almoço de amigos na casa de um camarada, num primeiro andar. Nada de grandes excessos porque na rua pacata e a vizinhança mantém próxima a vigilância, quase tão próxima como a PIDE que tinha debaixo de olho aqueles perigosos terroristas que escreviam versos e cantavam canções acompanhados à guitarra. 

Pelo final da tarde, estando os amigos a ouvir uns discos de vinil, a PIDE interrompeu o convívio. Bateu à porta e quis identificar toda a gente. 

Enquanto o dono da casa, na casa de banho tentava fazer desaparecer pelo cano alguns papéis comprometedores, um PIDE revistava a casa enquanto outro mantinha toda a gente na sala. 

A Tia, bem bebida, acabou com o assalto da polícia política quando se despiu e completamente nu, saiu para a varanda daquele primeiro andar e gritou na sua voz que todos conhecemos e que chegava à Almirante Reis:

-- Socorro, socorro, estão aqui dois pides que me querem violar... 

O pide ao tentar agarrar o corpo nu do poeta na varanda e trazer para dentro da casa, dava mais credibilidade à história. 

A vizinhança toda à janela. 

Claro que os pides desistiram de identificar os perigosos subversivos.

Mal sairam, a Tia voltou à sala e naquele tom teatral disse:

-- vocês já viram o que estas paneleiras fazem para me verem nu!?!??

Parabéns Tia. Farias hoje 83 anos e fazes falta camarada."

Créditos: Hélder Menor

SARAMAGO

SARAMAGO 


"Creio que a morte é a inventora de Deus. Se fôssemos imortais não haveria necessidade da invenção de Deus "

sexta-feira, 4 de dezembro de 2020

O ARQUITECTO

 

O ARQUITECTO

Gonçalo Ribeiro Telles, era arquitecto paisagista, activo defensor de uma sociedade sustentável, ecologista convicto. Monárquico assumido sempre se pautou por ser um Homem vertical, humanista e activista de causas ecológicas e apologista de um planeta mais verde. Toda a vida travou grandes batalhas contra os poderes instalados em defesa das suas convicções, em defesa do cidadão. A sua espada era a defesa do meio ambiente e o combate à poluição do nosso planeta. Em suma, tomava o lado do cidadão, falava por todos nós. Por isso e também por isso, era uma figura que incutia ternura e merecedora da simpatia e apoio em todos os quadrantes da nossa sociedade. Nasceu em Lisboa em 25 de Maio de 1922 e faleceu em 11 de Novembro de 2020.









Créditos do autor


Em homenagem à sua figura de Grande Cidadão português, STYLER, outra incontornável figura do nosso meio artístico, ligado ao grafitismo  e pinturas murais, muito bem, resolveu prestar tributo ao Grande arquitecto Ribeiro Telles. Se bem pensou melhor o fez, criando um belo mural na amada cidade natal do arquitecto, pintando motivos ligados à natureza, ao campo e aos jardins tão caros ao paisagista. Como corolário a magnifica pintura do rosto do nosso saudoso concidadão.

João Andarilho

terça-feira, 1 de dezembro de 2020

AUTOPSIGRAFIA

 Fernando Pessoa morreu em 30 de Novembro de 1935



O poeta é um fingidor.

Finge tão completamente

Que chega a fingir que é dor

A dor que deveras sente.



E os que lêem o que escreve,

Na dor lida sentem bem,

Não as duas que ele teve,

Mas só a que eles não têm.



E assim nas calhas de roda

Gira, a entreter a razão,

Esse comboio de corda

Que se chama coração.



«Fernando Pessoa», in 'Cancioneiro'

Trecho do poema Autopsigrafia 

segunda-feira, 30 de novembro de 2020

A BOLA QUE CHORA


A BOLA QUE CHORA


Com a devida vénia faço a transcrição da crónica de Jorge Valdano publicada no jornal " A Bola ", em homenagem ao seu companheiro de selecção ora falecido, Diego Armando Maradona:



"Aqueles que franzem o rosto ao pensar no último Maradona, com dificuldades para caminhar e para falar, a abraçar Maduro e a fazer da sua vida o que lhe apetecia, fazem bem em abandonar já esta despedida, que abraçará o génio e absolverá o homem. Não vão encontrar uma única censura porque o futebolista não tinha defeitos e o homem foi uma vítima. De quem? De mim ou de você, por exemplo, que seguramente em algum momento o elogiámos sem piedade.

Há algo de perverso numa vida em que se cumprem todos os sonhos e Diego sofreu como ninguém a generosidade do seu destino. Foi a passagem fatal da condição de humano à de mito que o dividiu em dois: de um lado, Diego; do outro, Maradona. Fernando Signorini, o seu preparador físico, um homem sensível e inteligente e, possivelmente, a pessoa que melhor o conheceu, costumava dizer: "Com Diego iria até ao fim do mundo, mas com Maradona nem à esquina". Diego era mais um produto do humilde bairro em que nasceu. Maradona foi superado por uma fama precoce. Essa glorificação desencadeou uma cadeia de consequências, a pior das quais foi a inevitável tentação de subir todos os dias até ao nível da sua lenda. Numa personalidade aditiva como a sua, isso foi fatal.

Se o futebol é universal, Maradona também o é, porque Maradona e futebol já são sinónimos. Mas ao mesmo tempo era inequivocamente argentino, o que explica o poder sentimental que sempre teve no nosso país e que o tornou impune. Um homem que, pela sua condição de génio, deixou de ter limites desde a adolescência e que, pela sua origem, cresceu com orgulho de classe. Por essa razão, e também pela sua força representativa, com Maradona os pobres ganharam aos ricos, de tal maneira que a adesão incondicional que vinha de baixo foi proporcional à desconfiança que vinha de cima. Os ricos odeiam perder. Mas até os seus piores inimigos tiveram de tirar o chapéu perante o seu descomunal talento futebolístico. Não havia outro remédio.

Com pouco mais de 15 anos começou a concorrer para deus do futebol. Para mais, fê-lo num país que o acolheu como um messias sentimental, porque o futebol, na Argentina, é um jogo que só chega à mente depois de passar pelo coração. O fascínio pela arte de bairro que Diego levou aos estádios transcendeu a clubite. Não importava a camisola que levava vestida, era um génio, era argentino e isso bastava para soltar o orgulho.

Como foi a sua obra que o tornou grande, e não a sua vida, comecemos por aí. Há umas primeiras imagens de Diego a dominar a bola num cenário humilde, concentrado como um burocrata e feliz como um menino que monta e desmonta a bola, o brinquedo da sua vida. Primeiro o pé esquerdo e depois a cabeça não a deixam cair, no que parece ser uma amável discussão com a bola que às tantas se revolta. Quase escapa, mas Diego não deixa, subjuga-a, como se a estivesse a domar, mais do que a dominar. Tem pouco mais de 10 anos e já aponta para a virtuosidade, mesmo que a bola e Diego ainda estejam a conhecer-se. 

O idílio do domador com a bola cresceu com o tempo até chegar a um ponto em que ver Diego a manejá-la era um espectáculo à parte. Quando treinava, e só para dar um exemplo, chutava-a até ao céu com um efeito que só ele entendia e, enquanto a bola viajava, Diego fazia exercícios como se não se lembrasse do que havia deixado a pairar no ar. Mas quando a bola, já a cair, chegava ao seu nível, voltava a olhar para ela como se estivesse surpreendido e devolvia-a ao céu com outro efeito para a esquecer durante mais um pouco. Sabia exactamente o momento e o lugar do reencontro. O resto devia-se à sua precisão milimétrica. O seu infinito repertório era complexo.

Estávamos em Berlim à espera de um jogo pela Argentina e Bilardo insistia na necessidade de apurar a técnica e, como as obsessões nunca são pequenas, repetia sem parar que um jogador argentino tinha de viver com a bola nos pés. "De manhã, à tarde e à noite, sempre com a bola". Dias a repetir o mesmo. Assim, na hora da refeição Diego saiu do quarto a dominar uma bola, apanhou o elevador enquanto continuava a dar toques, chegou à sala de jantar, sentou-se e a bola continuou sem cair enquanto debicava o pão. Bilardo entrou, viu-o e com um sorriso de orelha a orelha encheu-se de razão: "Estão a ver? Por isso ele é o Maradona". Este episódio, que sempre recordei com um sorriso, hoje chega envolto numa inevitável tristeza.

O virtuosismo que alcançou com a bola, e que todos admiramos, levou-o depois à concepção de jogo até fazer da perfeição um hábito. Com a visão periférica de uma coruja, com a nobre elegância de um mago para iludir e a potência de um 4x4 para escapar, tudo associado a passes perfeitos, remates letais e uma personalidade napoleónica para enfrentar as grandes batalhas...

Em nenhum outro lugar foi tão feliz como dentro de um campo de futebol. Aí tinha um encontro com o seu amor, a bola, mas também um domínio cénico espectacular, como se não se sentisse parte de uma equipa, mas único. Como um roqueiro que leva a multidão à loucura, em vez de um futebolista. A segurança que tinha com a bola e a superioridade abusiva do seu jogo foram sendo incorporadas na sua mentalidade até que chegou o dia fatídico em que a personagem superou a pessoa. Era diferente, sentia-se diferente e agia de forma diferente.

Em algum momento da reflexão anterior escaparam-se-me dois conceitos que, mal interpretados, são injuriosos e convém esclarecer. O primeiro, quando disse que era mais cantor do que futebolista. Essa imagem utilizei-a para exaltar o solista, mas nunca para rebaixar o futebolista. Foi e morreu com alma de jogador de futebol. O segundo esclarecimento é sobre a sua condição de solista. Sobressaía da equipa com um brilho incomparável, mas não só se sentia parte da equipa como era muito generoso com os seus companheiros. A felicidade que sentia dentro de um campo de futebol convertia-o em solidário, valente, hábil até ao exibicionismo e competitivo como um esfomeado. Por essa razão, estou convencido de que, só por ter pisado gloriosamente esses 100x70 metros, a vida valeu a pena.

Como esta recordação também pretende chamar a atenção sobre a exagerada vida de Diego, há que chegar a Nápoles, onde, em oito anos intensos como um século, o seu futebol atingiu níveis desconhecidos para o clube e gloriosos para si próprio, mas onde a sua vida descarrilou. A alegria e a dor, a luz e a escuridão, o pico mais alto e o poço mais profundo. A saúde, que era o futebol, e a doença que lhe contagiou a vida. Ninguém que eu conheça fez uma travessia tão longa e sinuosa.

Nas duas extremidades (a do campo e a da vida) habitou um super-homem. No campo porque, rodeado de jogadores normais, foi mais forte que os árbitros, que o poder do norte, que o super Milan de Sacchi e que a pobre história do Nápoles. Era ele contra o mundo. E ganhava ele. No Mundial de 1986, em que jogou em estado de graça, a sua genialidade conheceu o ponto mais alto no dia em que venceu a Inglaterra. Como Homero fez com o seu Ulisses, convém não fazer descrições externas e reservar para Diego os mesmos atributos que para o herói da Odisseia: "Sagaz", "manhoso", "certeiro" e "de muitos truques". O futebol de Diego era feito de beleza, de criatividade, de orgulho, virilidade e, naquela tarde frente à Inglaterra, de enorme 'argentinidade', em proporções idênticas de vivacidade e habilidade. Diego marcou um golo estratosférico e outro batoteiro. Aqui está o melhor exemplo dessa frase que usamos em ocasiões menos oportunas do que esta: estava acima do bem e do mal.

Também na vida habitou um super-homem porque, embora Jesus Cristo tenha ressuscitado ao terceiro dia, o que não é fácil, Maradona ressuscitou pelo menos três vezes, o que também não é fácil. Era tão forte fisicamente como era grande o seu génio futebolístico. Na verdade, todos os seus excessos foram um atentado contra o desporto e, ainda assim, não mancharam o seu descomunal talento, embora por vezes jogasse em condições alarmantes.

Na admiração e na dor cabem diferentes tipos de emoção. Hoje até a bola, o brinquedo mais comunitário que existe, se sentirá mais sozinha e chorará de forma desconsolada o seu dono. Todos os que amamos o futebol autêntico choramos com ela por Maradona. E os que o conhecemos choraremos ainda mais por aquele Diego que, nos últimos tempos, quase tinha desaparecido debaixo do peso da sua lenda e da sua vida de excessos. Adeus, grande capitão".




"Aqueles que franzem o rosto ao pensar no último Maradona, com dificuldades para caminhar e para falar, a abraçar Maduro e a fazer da sua vida o que lhe apetecia, fazem bem em abandonar já esta despedida, que abraçará o génio e absolverá o homem. Não vão encontrar uma única censura porque o futebolista não tinha defeitos e o homem foi uma vítima. De quem? De mim ou de você, por exemplo, que seguramente em algum momento o elogiámos sem piedade.

Há algo de perverso numa vida em que se cumprem todos os sonhos e Diego sofreu como ninguém a generosidade do seu destino. Foi a passagem fatal da condição de humano à de mito que o dividiu em dois: de um lado, Diego; do outro, Maradona. Fernando Signorini, o seu preparador físico, um homem sensível e inteligente e, possivelmente, a pessoa que melhor o conheceu, costumava dizer: "Com Diego iria até ao fim do mundo, mas com Maradona nem à esquina". Diego era mais um produto do humilde bairro em que nasceu. Maradona foi superado por uma fama precoce. Essa glorificação desencadeou uma cadeia de consequências, a pior das quais foi a inevitável tentação de subir todos os dias até ao nível da sua lenda. Numa personalidade aditiva como a sua, isso foi fatal.

Se o futebol é universal, Maradona também o é, porque Maradona e futebol já são sinónimos. Mas ao mesmo tempo era inequivocamente argentino, o que explica o poder sentimental que sempre teve no nosso país e que o tornou impune. Um homem que, pela sua condição de génio, deixou de ter limites desde a adolescência e que, pela sua origem, cresceu com orgulho de classe. Por essa razão, e também pela sua força representativa, com Maradona os pobres ganharam aos ricos, de tal maneira que a adesão incondicional que vinha de baixo foi proporcional à desconfiança que vinha de cima. Os ricos odeiam perder. Mas até os seus piores inimigos tiveram de tirar o chapéu perante o seu descomunal talento futebolístico. Não havia outro remédio.

Com pouco mais de 15 anos começou a concorrer para deus do futebol. Para mais, fê-lo num país que o acolheu como um messias sentimental, porque o futebol, na Argentina, é um jogo que só chega à mente depois de passar pelo coração. O fascínio pela arte de bairro que Diego levou aos estádios transcendeu a clubite. Não importava a camisola que levava vestida, era um génio, era argentino e isso bastava para soltar o orgulho.

Como foi a sua obra que o tornou grande, e não a sua vida, comecemos por aí. Há umas primeiras imagens de Diego a dominar a bola num cenário humilde, concentrado como um burocrata e feliz como um menino que monta e desmonta a bola, o brinquedo da sua vida. Primeiro o pé esquerdo e depois a cabeça não a deixam cair, no que parece ser uma amável discussão com a bola que às tantas se revolta. Quase escapa, mas Diego não deixa, subjuga-a, como se a estivesse a domar, mais do que a dominar. Tem pouco mais de 10 anos e já aponta para a virtuosidade, mesmo que a bola e Diego ainda estejam a conhecer-se. 

O idílio do domador com a bola cresceu com o tempo até chegar a um ponto em que ver Diego a manejá-la era um espectáculo à parte. Quando treinava, e só para dar um exemplo, chutava-a até ao céu com um efeito que só ele entendia e, enquanto a bola viajava, Diego fazia exercícios como se não se lembrasse do que havia deixado a pairar no ar. Mas quando a bola, já a cair, chegava ao seu nível, voltava a olhar para ela como se estivesse surpreendido e devolvia-a ao céu com outro efeito para a esquecer durante mais um pouco. Sabia exactamente o momento e o lugar do reencontro. O resto devia-se à sua precisão milimétrica. O seu infinito repertório era complexo.

Estávamos em Berlim à espera de um jogo pela Argentina e Bilardo insistia na necessidade de apurar a técnica e, como as obsessões nunca são pequenas, repetia sem parar que um jogador argentino tinha de viver com a bola nos pés. "De manhã, à tarde e à noite, sempre com a bola". Dias a repetir o mesmo. Assim, na hora da refeição Diego saiu do quarto a dominar uma bola, apanhou o elevador enquanto continuava a dar toques, chegou à sala de jantar, sentou-se e a bola continuou sem cair enquanto debicava o pão. Bilardo entrou, viu-o e com um sorriso de orelha a orelha encheu-se de razão: "Estão a ver? Por isso ele é o Maradona". Este episódio, que sempre recordei com um sorriso, hoje chega envolto numa inevitável tristeza.

O virtuosismo que alcançou com a bola, e que todos admiramos, levou-o depois à concepção de jogo até fazer da perfeição um hábito. Com a visão periférica de uma coruja, com a nobre elegância de um mago para iludir e a potência de um 4x4 para escapar, tudo associado a passes perfeitos, remates letais e uma personalidade napoleónica para enfrentar as grandes batalhas...

Em nenhum outro lugar foi tão feliz como dentro de um campo de futebol. Aí tinha um encontro com o seu amor, a bola, mas também um domínio cénico espectacular, como se não se sentisse parte de uma equipa, mas único. Como um roqueiro que leva a multidão à loucura, em vez de um futebolista. A segurança que tinha com a bola e a superioridade abusiva do seu jogo foram sendo incorporadas na sua mentalidade até que chegou o dia fatídico em que a personagem superou a pessoa. Era diferente, sentia-se diferente e agia de forma diferente.

Em algum momento da reflexão anterior escaparam-se-me dois conceitos que, mal interpretados, são injuriosos e convém esclarecer. O primeiro, quando disse que era mais cantor do que futebolista. Essa imagem utilizei-a para exaltar o solista, mas nunca para rebaixar o futebolista. Foi e morreu com alma de jogador de futebol. O segundo esclarecimento é sobre a sua condição de solista. Sobressaía da equipa com um brilho incomparável, mas não só se sentia parte da equipa como era muito generoso com os seus companheiros. A felicidade que sentia dentro de um campo de futebol convertia-o em solidário, valente, hábil até ao exibicionismo e competitivo como um esfomeado. Por essa razão, estou convencido de que, só por ter pisado gloriosamente esses 100x70 metros, a vida valeu a pena.

Como esta recordação também pretende chamar a atenção sobre a exagerada vida de Diego, há que chegar a Nápoles, onde, em oito anos intensos como um século, o seu futebol atingiu níveis desconhecidos para o clube e gloriosos para si próprio, mas onde a sua vida descarrilou. A alegria e a dor, a luz e a escuridão, o pico mais alto e o poço mais profundo. A saúde, que era o futebol, e a doença que lhe contagiou a vida. Ninguém que eu conheça fez uma travessia tão longa e sinuosa.

Nas duas extremidades (a do campo e a da vida) habitou um super-homem. No campo porque, rodeado de jogadores normais, foi mais forte que os árbitros, que o poder do norte, que o super Milan de Sacchi e que a pobre história do Nápoles. Era ele contra o mundo. E ganhava ele. No Mundial de 1986, em que jogou em estado de graça, a sua genialidade conheceu o ponto mais alto no dia em que venceu a Inglaterra. Como Homero fez com o seu Ulisses, convém não fazer descrições externas e reservar para Diego os mesmos atributos que para o herói da Odisseia: "Sagaz", "manhoso", "certeiro" e "de muitos truques". O futebol de Diego era feito de beleza, de criatividade, de orgulho, virilidade e, naquela tarde frente à Inglaterra, de enorme 'argentinidade', em proporções idênticas de vivacidade e habilidade. Diego marcou um golo estratosférico e outro batoteiro. Aqui está o melhor exemplo dessa frase que usamos em ocasiões menos oportunas do que esta: estava acima do bem e do mal.

Também na vida habitou um super-homem porque, embora Jesus Cristo tenha ressuscitado ao terceiro dia, o que não é fácil, Maradona ressuscitou pelo menos três vezes, o que também não é fácil. Era tão forte fisicamente como era grande o seu génio futebolístico. Na verdade, todos os seus excessos foram um atentado contra o desporto e, ainda assim, não mancharam o seu descomunal talento, embora por vezes jogasse em condições alarmantes.

Na admiração e na dor cabem diferentes tipos de emoção. Hoje até a bola, o brinquedo mais comunitário que existe, se sentirá mais sozinha e chorará de forma desconsolada o seu dono. Todos os que amamos o futebol autêntico choramos com ela por Maradona. E os que o conhecemos choraremos ainda mais por aquele Diego que, nos últimos tempos, quase tinha desaparecido debaixo do peso da sua lenda e da sua vida de excessos. Adeus, grande capitão".

Jorge Valdano

  O PALITAR DA VIDA   Como os dentes devemos palitar a vida todos os dias. Sou do tempo em que não havia modernices ao estilo do fio den...